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16 março 2026

Coração fraco

Está a acontecer o que temia. Depois da novela "A senhoria", sobre a qual me debrucei no post anterior, sucedeu-se "Polzunkov" e depois a que deu nome a esta compilação: "Coração fraco". Desde que comprei este livro que andava com maus pressentimentos em relação a esta novela. Pelo título, dada a natureza do meu coração, pressenti que não sairia ileso da sua leitura. E mais apreensivo fiquei depois de ler "A senhoria". Ainda não acabei de ler "Coração fraco" e já sei como vai terminar...

Quando iniciei a sua leitura vi logo no que é que ia dar. E, a cada página que virava, com mais certeza ficava, confirmando todos os receios que antevera. A história começa por mostrar a forte relação de amizade entre dois jovens, um mais impulsivo, de coração mais fraco digamos assim, e outro mais sensato. Vássia e Arkádi. O primeiro estava eufórico e ansioso por, finalmente, poder contar ao amigo que se ia casar. Facto de que o outro nem suspeitava porque Vássia nunca lhe falara da sua adorada namorada, de há apenas quatro meses, não fossem as coisas correr mal. Com estes ingredientes em cima da mesa, já estava a ver qual iria ser o prato principal. Ainda assim fui continuando a sua leitura, na esperança de que estivesse enganado.

À medida que ia lendo ia revivendo um episódio que se passou não há muito tempo, talvez há uns dois anos, que muito me perturbou. Estava eu muito bem com o meu irmão quando a Catarina apareceu, sem ter reparado em nós, mas a fazer algo que chamava a atenção. Adivinhando já o que se ia passar, embora com alguma esperança de que não acontecesse nada, o meu irmão, que nunca a tinha visto, nem podia supor que eu pudesse ter algum interesse nela, voltou-se para mim e sussurrou-me "aquela ali não é nada de se deitar fora". Foi como se estivesse estado cego o tempo todo e os olhos se me abrissem naquele instante. Um cenário que ainda não se me colocara apareceu de repente à minha frente, com todos os detalhes e tão bem definidos que era como se estivesse a acontecer. E que dor aquilo me causou. Foi como se tivesse visto o futuro. Vi a Catarina e eu numa relação, muito apaixonados um pelo outro, até surgir a inevitável altura em que é apresentada à família. E aqui, como uma revelação, ou como um aviso, foi como se tivesse a certeza de que o meu irmão se tornaria o incontestável alvo de todo o seu amor.

O meu irmão é o melhor dos rapazes, de quem, acreditem, não guardo nenhum rancor. Não tem culpa de que toda a gente goste dele... Não faz esforço nenhum para que isso aconteça. Nunca me senti traído por ele. Ele tem qualquer coisa de especial, uma aura digamos, que atrai toda a gente. Gente e não só. A minha cadela, por exemplo, até salta quando o vê. Por outro lado, eu, um cidadão comum, tenho o condão inverso. O menos nobre sentimento que tenho por ele é uma ponta de inveja, por não ter saído mais como ele. Foi por isso que me surgiu este receio em relação à Catarina. Muitos pensamentos invadiram então a minha cabeça. Desde dar graças por nunca ter tido nada com ela e assim nunca a poder perder, a imaginar subterfúgios para que os dois nunca se viessem a cruzar.

No ponto da narrativa em que me encontro Vássia já levou Arkádi a casa da noiva. E, claro está, este ficou apaixonadíssimo por ela. Todas as minhas suspeitas se estão a confirmar e avançar na leitura desta novela está a tornar-se cada vez mais penoso.  Até pode ser que não, que tudo acabe em bem. Mas já todos percebemos o que vai acontecer, não percebemos? Nem quero imaginar o que Vássia vai sentir...

Se em "A senhoria" fui confrontado com uma realidade "igual" à que tive recentemente, cujo tema é o amor não correpondido, ou a rejeição,  em "Coração fraco" estou a encontrar outra realidade, ainda mais dolorosa, que a todo o custo tento evitar, que é a do ciúme, da traição. É de tal ordem a minha fobia a esta dor que as maiores decisões da minha vida foram por ela condicionadas.

Agora expliquem-me lá, adeptos das ciências ocultas, como é que eu pude ter este pressentimento em relação a esta novela? Como é que pressenti que estava perante um texto que me iria abrir a ferida mais dolorosa que tenho? Para a coincidência de ”A senhoria” encontrei uma explicação. Para esta premonição confesso que não estou a ver.



25 fevereiro 2022

A Esperança

Por vezes deparo-me com episódios do dia a dia que me transportam para a minha infância. Para o tempo em que andava na escola primária. Vejo imagens desfocadas, pequenos flashes, apenas ténues contornos daqueles tempos, que recordo com alguma saudade. Inevitavelmente comparo-os com o tempo presente, ou melhor, comparo o Miguel daquele tempo com o atual. E constato, com amargura, que este Miguel é muito menos feliz do que era aquele. Na verdade, quando era criança, a felicidade nem era uma preocupação do presente. Daquele presente. Sabia que me encontrava numa viagem cujo destino era a felicidade, mas esta encontrava-se numa estação muito mais à frente. Sabia que me estava a preparar para ela. A estudar para chegar mais longe. Para ter um futuro feliz, de acordo com tudo o que naquele tempo fazia parte deste conceito. Mas, naquele presente, a felicidade não importava. Contudo, eramo-lo, sem o sabermos. Pelo menos na maior parte do tempo. Sobretudo quando correspondíamos ao que era esperado de nós, ou quando ninguém nos estava a ver. E quando sentíamos que gostavam de nós.


Felizmente (a importância desta palavra é impressionante!), no que diz respeito a agradar os meus pais, não posso dizer que tenha falhado, embora pairasse constantemente no ar a sensação de que esperavam sempre um pouco mais de mim, apesar de, naquele tempo, isso ainda não me preocupar muito.


Também não me tiravam o sono as frequentes discussões entre os meus pais. Apesar de nunca ter presenciado violência física, a violência das palavras no que diz respeito ao conteúdo, tom e intensidade, provocavam-me grande mágoa. Mas tinha a sensação de que aquilo era normal. Também os meus avós faziam o mesmo.


Na escola não tinha grandes problemas. Era minimamente respeitado e não gozavam comigo, embora me entristecesse o facto de ser sempre dos últimos a ser escolhido para integrar as equipas, nas aulas de ginástica. Lembro-me também de quanto me custavam as segunda-feiras e de como ficava com o estômago às voltas aos domingos à tarde. Acho que adivinhava a luta que tinha que travar para não ser gozado nem apresentar maus resultados em casa.


Estas dificuldades, normais, eram compensadas com a minha Mãe. Eu adorava-a e, nessa altura, ainda tinha a ilusão de que ela também me adorava. Nem mesmo o medo que tinha do meu Pai conseguia diminuir o conforto que encontrava na minha Mãe. Em relação ao meu Pai, sabia que gostava de mim. Pelo menos quando me comportava como ele desejava, o que eu ia fazendo sem qualquer tipo de revolta. Nessa altura…


Era então um menino muito bem-comportado, que tudo fazia para não perder o amor com que assim era recompensado… só mais tarde estas coisas me afectaram conscientemente. Mas nesta fase tudo era habitual e a verdade é que não era um miúdo triste. Brincava, ria, tinha amigos, entretinha-me facilmente. E as paixões amorosas provocavam-me emoções nunca antes vividas e, naquela idade, ser-se correspondido é que era anormal. Em suma era uma criança que, apesar de tudo, ia fazendo aquela viagem sem grandes atropelos.


Quando olho para mim hoje, encontro muitas diferenças. Não no meu íntimo. Esse permanece pouco alterado. Mas nos comportamentos. Na atitude. Na alegria. Na espontaneidade. Fiz toda aquela viagem de acordo com o guia. E não me posso queixar de nada. Tenho saúde, emprego, uma óptima mulher, filhos saudáveis e, aparentemente, felizes. No entanto, devo ter-me esquecido de sair na estação da felicidade. Ou talvez ela se encontre somente na estação terminal. Mas já nem nisso acredito. Constato que a diferença entre estes dois Migueis reside essencialmente na perda de um único e exclusivo factor: O da esperança. É esta que nos move. Que nos faz querer acordar. E quando esta se perde, fica a restar apenas o vazio. Tudo deixa de fazer sentido. Nada do que se possa fazer parece valer a pena. Nada somos. E, por melhor que sejamos, seremos sempre medíocres. As nossas limitações parecem ser incontornáveis. A esperança de encontrar algo em nós digno de louvor fica esmigalhada. E, por melhores qualidades que venha a descobrir em mim, sei que nenhuma contribuirá para alterar a situação.


Talvez o caminho seja através da aceitação. Talvez por aí seja possível restaurar a esperança, para que, cada passo, cada paragem, torne de novo a fazer sentido. Talvez ainda me reste um fiozinho de esperança. Talvez ainda não tenha morrido por completo. Nem ela, nem eu…


 

Este texto não é sobre gajas

  Tem uma vida profissional difícil de suportar? Não se sinta só. Provavelmente não é tão difícil como a minha. A minha é uma seca, mas uma ...