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16 março 2026

Coração fraco

Está a acontecer o que temia. Depois da novela "A senhoria", sobre a qual me debrucei no post anterior, sucedeu-se "Polzunkov" e depois a que deu nome a esta compilação: "Coração fraco". Desde que comprei este livro que andava com maus pressentimentos em relação a esta novela. Pelo título, dada a natureza do meu coração, pressenti que não sairia ileso da sua leitura. E mais apreensivo fiquei depois de ler "A senhoria". Ainda não acabei de ler "Coração fraco" e já sei como vai terminar...

Quando iniciei a sua leitura vi logo no que é que ia dar. E, a cada página que virava, com mais certeza ficava, confirmando todos os receios que antevera. A história começa por mostrar a forte relação de amizade entre dois jovens, um mais impulsivo, de coração mais fraco digamos assim, e outro mais sensato. Vássia e Arkádi. O primeiro estava eufórico e ansioso por, finalmente, poder contar ao amigo que se ia casar. Facto de que o outro nem suspeitava porque Vássia nunca lhe falara da sua adorada namorada, de há apenas quatro meses, não fossem as coisas correr mal. Com estes ingredientes em cima da mesa, já estava a ver qual iria ser o prato principal. Ainda assim fui continuando a sua leitura, na esperança de que estivesse enganado.

À medida que ia lendo ia revivendo um episódio que se passou não há muito tempo, talvez há uns dois anos, que muito me perturbou. Estava eu muito bem com o meu irmão quando a Catarina apareceu, sem ter reparado em nós, mas a fazer algo que chamava a atenção. Adivinhando já o que se ia passar, embora com alguma esperança de que não acontecesse nada, o meu irmão, que nunca a tinha visto, nem podia supor que eu pudesse ter algum interesse nela, voltou-se para mim e sussurrou-me "aquela ali não é nada de se deitar fora". Foi como se estivesse estado cego o tempo todo e os olhos se me abrissem naquele instante. Um cenário que ainda não se me colocara apareceu de repente à minha frente, com todos os detalhes e tão bem definidos que era como se estivesse a acontecer. E que dor aquilo me causou. Foi como se tivesse visto o futuro. Vi a Catarina e eu numa relação, muito apaixonados um pelo outro, até surgir a inevitável altura em que é apresentada à família. E aqui, como uma revelação, ou como um aviso, foi como se tivesse a certeza de que o meu irmão se tornaria o incontestável alvo de todo o seu amor.

O meu irmão é o melhor dos rapazes, de quem, acreditem, não guardo nenhum rancor. Não tem culpa de que toda a gente goste dele... Não faz esforço nenhum para que isso aconteça. Nunca me senti traído por ele. Ele tem qualquer coisa de especial, uma aura digamos, que atrai toda a gente. Gente e não só. A minha cadela, por exemplo, até salta quando o vê. Por outro lado, eu, um cidadão comum, tenho o condão inverso. O menos nobre sentimento que tenho por ele é uma ponta de inveja, por não ter saído mais como ele. Foi por isso que me surgiu este receio em relação à Catarina. Muitos pensamentos invadiram então a minha cabeça. Desde dar graças por nunca ter tido nada com ela e assim nunca a poder perder, a imaginar subterfúgios para que os dois nunca se viessem a cruzar.

No ponto da narrativa em que me encontro Vássia já levou Arkádi a casa da noiva. E, claro está, este ficou apaixonadíssimo por ela. Todas as minhas suspeitas se estão a confirmar e avançar na leitura desta novela está a tornar-se cada vez mais penoso.  Até pode ser que não, que tudo acabe em bem. Mas já todos percebemos o que vai acontecer, não percebemos? Nem quero imaginar o que Vássia vai sentir...

Se em "A senhoria" fui confrontado com uma realidade "igual" à que tive recentemente, cujo tema é o amor não correpondido, ou a rejeição,  em "Coração fraco" estou a encontrar outra realidade, ainda mais dolorosa, que a todo o custo tento evitar, que é a do ciúme, da traição. É de tal ordem a minha fobia a esta dor que as maiores decisões da minha vida foram por ela condicionadas.

Agora expliquem-me lá, adeptos das ciências ocultas, como é que eu pude ter este pressentimento em relação a esta novela? Como é que pressenti que estava perante um texto que me iria abrir a ferida mais dolorosa que tenho? Para a coincidência de ”A senhoria” encontrei uma explicação. Para esta premonição confesso que não estou a ver.



06 julho 2025

Dizes?

 

Diz-me só quando vai ser, dizes?

Diz-me só se ainda falta muito

ou se está quase, dizes?

Só para saber

quanto tempo ainda tenho

para não desistir de ti.

Dizes?

 

17 junho 2025

E fogo sem fumo?

O meu amor é um fogo

que se ateia sempre que te vê.

Rarefeito de ti

torna-se uma espessa nuvem

de fumo negro

que me engole e sufoca

sem nunca se dissipar

até à hora em que,

por mais que demores,

ele te volta a ver.

Fumo sem fogo não há.

Fogo sem fumo

meu amor nunca viu.

 

 

 

17 janeiro 2025

Talvez te venha a esquecer

 
Talvez te venha a esquecer.
Para já, não vou forçar.
Vou deixar de me importar
com a dor de não te ter.
 
Se te vir, vou deleitar-me;
Quando não, vou te ansiar.
Se sorrires estás a abraçar-me;
Se me olhares, um beijo a dar.
 
Hoje não te dás permissão 
pra me sorrires ou olhar,
mas sinto que o teu coração 
fica à porta a espreitar.
 
Para mim já não te viras,
mas eu digo que é por dever,
que no fundo estás a sofrer,
e tudo o resto são mentiras.
 
 

13 dezembro 2024

Quem me dera simplesmente esquecê-la

Não estou a conseguir esquecê-la. Ou melhor, não estou a conseguir querer esquecê-la. Nas minhas esporádicas orações, quando estou para pedir ajuda para a esquecer, vacilo. Receio que o meu pedido seja atendido e, no íntimo, quero é pedir para que ela goste de mim... Não estou mesmo a conseguir querer abrir mão dela. Não me convenço de que nunca sentiu nada por mim. E convenço-me de que ainda sente... agarro-me às expressões que percebi no seu rosto, aos brilhos que encontrei nos seus olhares, à ansiedade que vi nos seus gestos... Nada disto foi adivinhado por mim. Não foi delírio nem imaginação minha. Tenho a certeza de que foi real. O meu erro deve estar em não aceitar que os sentimentos mudam. Que por vezes não são certos e que percorrem caminhos erráticos. E isto pode e deve ter acontecido com ela.

Não acredito no seu amor pelo seu homem. Nunca acreditei. Mas é o homem que escolheu. É o que lhe pode dar conforto, lhe pode dar a mão. A pode amar. Eu não posso. Então o mais lógico seria centrar-me naquilo que tenho. Seria, nos meus momentos de recolhimento, deixar de pensar nela. Passar definitivamente uma esponja sobre ela. Só que, quando vejo o seu rosto, fotografado no meu cérebro como se estivesse à minha frente, como o vi na semana passada, ou na outra, e que fica gravado com tanta nitidez, dou-me por vencido. Porque as emoções que tenho quando a vejo, ávido por detectar o mais pequeno sinal seu, são difíceis de conter em mim. Sinto-me virar-me do avesso. Sinto o meu coração desinquietar-se. A respiração suspender-se. O peito ficar a doer-me. O tempo a alongar-se. O espaço a enevoar-se, deixando visível apenas ela. E vê-la é a mais maravilhosa experiência que se pode ter. E não quero deitar fora estes sentimentos...

Como é difícil um rico entrar no reino dos Céus... Como foi difícil para Judas abdicar dos trinta dinheiros. Não foi capaz. A minha riqueza é ela. Por causa do que me faz sentir. E não estou a querer sair deste inferno... Se verdadeiramente a amo tenho de desistir dela. Deixá-la ser feliz com a sua família. E colocar o meu futuro nas mãos de Deus. Ser perseverante. Confiar que Ele me deu o que é melhor para mim. E que, se houver algo melhor, a seu tempo Ele mo dará. Aceitando com humildade que pode não ser aquilo que agora quero. Parece ser tão fácil quando se pensa nisto desta forma tão racional... Quem me dera esquecê-la… naturalmente, sem custo. Simplesmente deixar de a desejar... amo-a tanto, porra!

 

 

06 novembro 2024

Quero dizer-te uma coisa

Quero dizer-te uma coisa.
Uma coisa que nunca disse a ninguém,
por não ser possível ou por não ser verdade.
Quero dizer-te que é contigo que estou
quando abraço a minha almofada.
Que são os teus cabelos que me cobrem
no lugar do meu lençol.
Que são os teus lábios que ficam nos meus
e não as costas da minha mão.
Mas é uma só coisa o que te quero dizer.
O que quero mesmo dizer-te é que te amo!

 

06 setembro 2024

As mulheres que amo

São muitas as mulheres de quem não me esqueço. As mulheres que amo. Umas mais do que outras, mas todas com lugar cativo no meu coração. Umas conheci muito bem, outras menos e até há aquelas com quem apenas me cruzei fugazmente, mas que fazem dar por mim a ver se as vejo sempre que revisito os lugares onde as conheci. A maior parte destas mulheres já foi referida neste blog, mas restam algumas que, apesar de não se justificar escrever um texto sobre elas, por não ser original ou suficientemente interessante para o leitor, tiveram tanta ou mais importância do que as que foram citadas. Todas elas ficaram gravadas no meu coração, que mais parece a plateia de um auditório. Umas ocupam a primeira fila, outras lugares posteriores. Uma está, neste momento, no lugar central, mais iluminada. Há outra ao seu lado, que é impossível não ver, tal como todas as outras, da primeira à última fila. Por vezes trocam de lugar entre si, mas teimam em não sair deste auditório. Independentemente do lugar que ocupam, cada uma delas é capaz de me fazer esquecer momentaneamente todas as outras, como se o foco estivesse apontado exclusivamente para ela. Mas se este se desloca para outra eu quero-a com a mesma ou mais intensidade do que a anterior. Não se trata de ter uma eleita num determinado intervalo de tempo. O problema é serem várias a ocupar o primeiro lugar. Se pudesse hierarquizá-las seria mais fácil. Escolheria a primeira sacrificando as outras por um bem maior. Mas, estando tantas em pé de igualdade, não consigo ser fiel a apenas uma delas. Nem numa ilha deserta o seria, pois, este auditório vai comigo para todo o lado. Gostava de ter uma cama gigante e braços igualmente longos para poder ter comigo todas estas mulheres juntas num só abraço. Gostava de ter mil bocas para beijá-las todas ao mesmo tempo. Assim como gostava de ter mil mãos. Ou talvez duas mil, se não for pedir de mais... Mas, todas estas mulheres têm um fator em comum: nunca vivi com nenhuma delas e gostava de viver. Talvez seja por isso que se mantêm na sala. A única mulher com quem vivi, também esteve nesta plateia, mas já não a vejo por lá há muito tempo. Talvez esteja comigo no palco.

 

17 agosto 2024

Beijos

Nos beijos que lhe dou


tento em ti não pensar,


mas por mais que dela goste


e que goste de a beijar,


são saudades, aqueles beijos,


dos que não te pude dar.


 


 

22 setembro 2023

Helena

Imagem gerada por IA

Confesso que estava um pouco ansioso por reencontrar a Helena depois de um ano sem a ver. Ela é muito bonita. Tem uns olhos de cristal, azuis, que estão sempre a sorrir ainda que o seu semblante se apresente mais sério, o que não é raro tendo em conta os seus azeites. Não resisti descer até à água, fingindo querer refrescar-me, para cumprimentar os seus pais e aproveitar, objetivo principal, para cumprimentá-la também, quando subisse, ao passar na sua palhota. Quando o fiz só lá estava a irmã com as suas amigas. Não reparei que na palhota ao lado a jovem que estava aparentemente a dormir, de barriga para baixo, era ela. Cumprimentei a irmã, que me respondeu a contragosto, e quando me dirigia para a minha palhota, três casas ao lado, na fila seguinte, a Helena me interpelou, de um salto, para me cumprimentar. Tentei refazer-me do calafrio o mais rapidamente possível para disfarçar ao máximo todas as emoções que se me afloraram naquele instante, ao mesmo tempo que procurava palavras para lhe dizer que parecessem adequadas ao reencontro entre um senhor já entrado e uma amiga da sua filha… E tudo isto com uma plateia imensa, de gente conhecida, a observar a cena, parecendo já adivinhar o enredo que sobremaneira fui tentando camuflar. Acho que disfarcei bem, mas a minha alegria e atrapalhação não escaparam certamente à astucia da Helena. Ela é muito mais do que linda… Que sensação! Que miúdo eu sou. Como pode uma mulher de apenas vinte anos ter este efeito num homem já de meia-idade? Fui para a palhota e sentei-me para me recompor, deixar o coração voltar ao seu lugar, depois de ter descido ao estâmago e subido à garganta. Mais calmo, decidi descer até à água para me banhar um pouco, bendizer a vida, apreciar a beleza da praia e descansar o olhar sobre a Helena apenas um pouco mais. Como se este presente não bastasse, tive a imerecida sorte de poder vê-la descer para também se banhar e ainda tê-la como companhia por alguns minutos, até decidirmos todos voltar para os nossos cómodos. Talvez ela não saiba que me fez ganhar as férias. E eu também não sei que raio de efeito tive sobre ela. Mas deixem-me acreditar que este nosso encontro teve algo que ver com aquele brilhozinho que vi no seu olhar… E é assim que vai vivendo um incorrigível canalha.


 

14 julho 2023

A ver se te vejo

sempre que vou pela rua
ando a ver se te vejo
cuidando também ser tua
a vontade de um beijo


sentires amor por mim
é com o que vou sonhando
e é por achar que sim
que a ver se te vejo ando


mesmo quando acho que não
continuo a querer ver-te
não me sais do coração
não consigo esquecer-te


se me disseres vagamente
que não te inspiro desejo
então irei prontamente
deixar de ver se te vejo


mas se eu for do teu agrado
nesse caso nada digas
ver-te-ei sempre a meu lado
por onde quer que sigas


 

30 junho 2023

A rosa amarela

Ultimamente tenho viajado bastante. Vou a terras longínquas. A outros planetas, como fazia o Principezinho. Numa dessas viagens encontrei uma rosa. De início, também era igual a tantas outras rosas. Era uma rosa amarela. Não daquele amarelo vaidoso, quase laranja. Nem daquele que se confunde com o branco. Era de um amarelo limão. Sim, era isso. Um amarelo fresco e alegre, a lembrar o Verão. Mal vi aquela rosa achei-a bonita, como aliás são todas as rosas. Mas cedo comecei a diferenciá-la das outras, porque passava por aqueles lados algumas vezes.


Quando passava deitava-lhe sempre o olho e cumprimentava-a cordialmente. Ela retribuía com a mesma moeda. Era uma rosa simpática, falava muito bem a toda a gente. Era mais atenciosa com os humildes mostrando-lhes sempre o seu lindo sorriso e espalhando alegria à sua volta. Ela deixava-os contentes e com mais vontade de trabalhar. E isso ainda me fazia gostar mais dela. Com os seus iguais não se deixava ficar. Tinha resposta pronta e era muito sensata merecendo por isso bastante respeito. Aquela rosa começou a cativar-me e percebi que também a cativava. Pelo menos um pouco. Porque quando gostamos de uma rosa e lhe damos atenção, uma atenção desinteressada, essa rosa também gosta de nós. E foi isso que acho que aconteceu.


Houve uma altura em que começámos a conversar. Sentava-me no chão ao seu lado e ia-lhe contando um pouco da minha vida. Ela gostava mais de ouvir do que de falar e ia-me ouvindo com atenção parecendo gostar do que lhe dizia. Mas mesmo sem falar nada sobre si mesma eu ia percebendo, pelas suas expressões, pelo seu olhar, pelos seus gestos tímidos, como é que ela era. E eu não me calava. Não era por medo de um vazio de conversa. Era mesmo porque ela parecia interessada em saber. E assim fomos ficando amigos. É boa a amizade. Faz-nos esquecer todo o resto, parecendo ser a coisa mais importante. É mesmo a coisa mais importante.


Enquanto estava naquele planeta a rosa amarela, cor de limão, era muito importante para mim. Mas chegou o dia em que tinha de voltar para o meu lar. Tive pena de deixar a rosa amarela e não sabia se regressaria àquele planeta. Quando nos despedimos ela deu-me um beijo na cara o que me surpreendeu, por um lado, mas veio a confirmar a ideia que tinha dela. Fiquei mais contente do que triste pois sabia que mesmo que não voltasse a encontrá-la podia escrever-lhe do meu planeta e que, para os amigos, muitos anos são como se fossem dias.


 Escrevi-lhe algumas vezes e ela ia-me respondendo, embora demorasse mais tempo do que aquilo que eu desejava. Mas sabia que era uma rosa muito viva e que tinha muito a fazer com as outras rosas. Para além disso também não gostava de escrever. E muito menos sobre ela, claro.


Numa dessas cartas explicou-me que gostava mais de desenhar e que desse modo conseguia falar sobre si mesma. Fiquei logo muito curioso acerca dos seus desenhos porque mesmo conhecendo um pouco da sua essência, uma pessoa gosta sempre de saber o que uma rosa tem para contar. Saber de onde veio; que vento levou a sua semente para aquele planeta; do que é que gosta mais de fazer, essas coisas mundanas e também outras mais sérias. Porque todos nós temos coisas mais sérias para contar a alguém. Um dia hei-de ver um ou outro desenho seu.


Mais tarde, numa altura em que a órbita do seu planeta passou mais perto da Terra, quis encontrar-me com ela. E foi o que combinámos. No dia do nosso encontro uma brisa terrestre, vinda do polo-Norte, não lhe fez nada bem e marcámos para outro dia. No início achei que tivesse sido uma desculpa e que ela não estivesse para me aturar. Mas acho que estava errado, o que me acontece muitas vezes. Sobretudo quando tento adivinhar pensamentos de rosas.


Essa altura foi muito confusa. Desmarquei o nosso encontro. Mas depois quis outra vez encontrar-me e combinámos que o faríamos quando a órbita dos nossos planetas se aproximasse outra vez. Não sei daqui a quanto tempo. Acho que ficou com medo de que eu quisesse arrancá-la da sua terra para a plantar na minha, ficando longe do seu planeta ameno e sentindo-se muito sozinha ali enquanto eu andava na minha vida. Mas não era isso que eu queria. Queria apenas estar mais um pouco com ela. Ela não me disse isto pois as rosas nunca mostram o que sentem, muito menos esta rosa. E o que eu mais fazia era adivinhar os seus pensamentos. Mas como é que um homem consegue adivinhar os pensamentos de uma rosa?


Agora os nossos planetas já estão um pouco afastados, mas quando o vento vem de feição ainda sinto o aroma das suas pétalas. Embora já não nos correspondamos tanto, guardo sempre esta rosa no meu coração e acho que com ela também acontece o mesmo. 


Em vez da tristeza da saudade tenho a alegria de nos termos pertencido um pouco. E quando fecho os olhos, se quiser, consigo vê-la. Com a sua cor amarela, mas de um amarelo limão. Um amarelo fresco e alegre a lembrar o Verão.


Abril de 2015


 


 

26 maio 2023

O passageiro do seu lado esquerdo

Imagem gerada por IA

Quando me sentei e vi de quem ia ficar ao lado não fiquei logo entusiasmado, mas fiquei curioso. Deve andar pelos quarenta. Muito direitinha, já com o cinto de segurança apertado, olhando em frente, sem grandes movimentações. Apesar de já não ser obrigatório, estava de máscara. Fiquei curioso, é verdade. Fiquei também um pouco despeitado por não se mostrar minimamente interessada na minha pessoa. Já prestes a levantar voo para regressar ao meu querido país, ela começa a preparar-se para a viagem que iria durar apenas duas horas, tempo suficiente para se ficar enregelado caso não se tomassem as devidas precauções. Pelo seu ritual via-se que era uma habitué. Com casacos e camisolas improvisou duas mantas, uma para as pernas e outra para os ombros, até que o desassossego terminou. Da minha parte apenas deslizei até cima o fecho-éclair do casaco. Como eu estava do lado da coxia, a janela era um óptimo pretexto para poder tranquilamente observá-la, embora apenas de perfil. Nem sequer um pouco enviesada a consegui ver. Os seus olhos cor de mel, juntamente com as pestanas e as sobrancelhas, eram impressionantes. Davam vontade de me diluir neles.


Sempre na esperança de que se dignasse olhar para mim acabei por começar a adormecer. Neste estágio dei por mim a perguntar aos meus botões, ou melhor, ao meu fecho-éclair, que seria se lhe desse a mão. Um gesto que estava mesmo ali ao meu alcance. Mais fácil do que pedir um copo de água. Claro que não o fiz. Perante a indiferença às minhas mal disfarçadas investidas o certo era que a coisa não fosse correr bem. Não levaria um estalo, mas de um gesto brusco não me livraria pela certa. Contudo, ainda dei espaço à incerteza pensando como seria se acontecesse o oposto. Se partisse dela a iniciativa de me dar mão. Claro que não rejeitaria a sua mão, com aqueles dedos esguios e delicados, de unhas bem recortadas e desprovidas de pintura. Acho que começaria a pairar como se a aeronave perdesse de repente a sustentação...E continuei este diálogo comigo próprio, maldizendo a Mãe Natureza por não ter promovido maior igualdade de género nas respostas a este tipo de iniciativas.


Quando acordei ela estava com a mesma postura, mas agora entretida com o telemóvel. Fui deitando o rabo do olho para tentar confirmar, com base no que ela estava a ver, se era portuguesa ou não, mas não me dava grandes hipóteses, colocando a mão esquerda de maneira que eu não conseguisse ver nada. Excepto que estava despida de qualquer anel, informação tão ou mais útil do que a que pretendera saber. Do outro lado seguia outro passageiro que esteve quase todo o tempo a dormir, mas que deu para perceber que não lhe era nada. Pensei sacar do livro que ando a ler não só para me ocupar como também para mostrar um certo nível de erudição que presumi poder marcar pontos a meu favor, mas, pela falta de originalidade, já que muitos à nossa volta estavam a fazer o mesmo, e aproveitando a amálgama de pensamentos que me estava a ocorrer bem como uma coisa que acabara de fazer sem que a devesse ter feito, optei por começar a redigir este post.


Ou seja, neste momento em que estou a escrever ela está aqui ao meu lado, não fazendo a mínima ideia de que estou a escrever sobre si. Nem o vai saber mesmo que queira, pois a minha letra até eu tenho dificuldades em compreender. Pelo menos para já, uma vez que há pouco, quando se ausentou, enfiei nos seus pertences um bilhetinho onde escrevi: "oqueficanagaveta.blogs.sapo.pt  - o passageiro do seu lado esquerdo". Isto significa que neste momento, e agora refiro-me ao momento em que o leitor está a percorrer estas linhas, ela pode já ter feito o mesmo. E pode também ter lido os meus posts anteriores e ter percebido que não sou de fiar, o que não abona nada a meu favor, mas, ainda assim, com o que decidi apesar de tudo publicar, há de ficar no mínimo um pouco lisonjeada. Como irá reagir é que é uma caixinha de surpresas. A profusão de possibilidades daria para escrever um romance, embora o mais provável seja que nada aconteça. Nem sequer noto curiosidade da parte dela em ver o que estou para aqui a escrever... Agora vou pôr o caderno de lado que já estamos quase a tocar na pista.


P.S. Assim que aterrámos ela tirou a máscara o que não me desiludiu de maneira nenhuma. Estava à espera de que nesta altura conseguisse obter alguma atenção da sua parte, mas qual quê. Saí à sua frente e entrei no autocarro na porta do meio na esperança de que me seguisse. Não é que se enfiou na porta de trás sentando-se numa cadeira virada para trás e não me dando qualquer hipótese. Afinal não queria mesmo nada comigo. Um desinteresse mais do que completo. Já no aeroporto desviou-se para o lavabo e eclipsou-se de vez. Nem enquanto esperava pela mala a vi passar. E agora o papelinho está com ela e já não há nada a fazer... ou será que também sonhei com isto?


 

24 março 2023

Viciado em ti

Quando estou perto de ti, quando estás ali, a apenas escassos metros de mim, e tenho possibilidade de te observar, não resisto a demorar o meu olhar sobre ti. Gosto de olhar os contornos do teu rosto, as curvas das tuas sobrancelhas o jeito único do teu longo cabelo preto. E melhor que as emoções que experimento nestes momentos, só mesmo se pudesse estar ao teu lado, partilhar contigo aquilo que sou, partilhares comigo aquilo que és. De onde vem o meu amor? porque desejo tanto que um dia fiquemos juntos? Porque me questiono tanto se isso um dia virá a acontecer? Porque tantas vezes tenho o pressentimento de que isso vai acontecer? Não é que sejas minha o que eu quero. Quero antes ser teu. Quero dar-me a ti completamente. Por vezes vejo-te olhar rapidamente para mim e não consigo adivinhar no que estás a pensar. Mas não encontro censura nos teus olhos. Quando penso em ti apetece-me escrever. Deixar rolar a ponta da caneta ao sabor dos pensamentos. Deixá-la gravar as curvas e contracurvas das letras como se os teus cabelos sedosos e encaracolados estivesse a desenhar. E ponho-me a imaginar como seria se pudéssemos passear de mãos dadas. Sentir-me-ia o homem mais feliz do mundo se isso acontecesse. Este desejo de te encontrar para te poder ver parece nunca se desvanecer. Não quero pensar que este amor um dia vai terminar. Quando olho para ti ele é sempre eterno. E recíproco. Não quero pensar que não o possa ser. Apenas a tua doçura me importa quando te vejo. E o meu amor por ti deixa de caber em mim. E desejo voltar a ver-te. Acho que estou viciado em ti.


 


 

30 dezembro 2022

Maria João

A Maria João é a dona de um restaurante que passei a frequentar quando mudei de emprego, há cerca de dois anos e meio. Ela e o marido.


É um restaurante pequeno, com cinco ou seis mesas, muito acolhedor. A Maria, como passei a chamar-lhe bastante tempo mais tarde, é daquelas pessoas que põe amor em tudo o que faz. É ela quem cozinha, e fá-lo muitíssimo bem. Mas não foi só por causa da gastronomia que engracei com o restaurante. Foi principalmente por me sentir muito bem recebido ali. Com a Maria sempre preocupada em que não me faltasse nada. Sinto-me bem ali e pelo menos uma vez por semana costumava ir lá almoçar. No tempo dos confinamentos, até ia mais vezes, para levar o almoço para o escritório.


A Segunda-feira era o dia em que acabava por lá ir mais vezes. Neste dia, não sei bem por que razão, costumo sentir uma grande tristeza, e almoçar ali era um bálsamo que me ajudava a suportar melhor o dia. Sentia aquele lugar como um porto de abrigo. Um pouco como ir a casa de uma avó. Sabia que a Maria me iria tratar bem.


Há pouco mais de dois meses o nosso escritório mudou de instalações e fiquei a cerca de 6 km deste meu refúgio. No dia em que fizemos a mudança fui lá tomar um café para me despedir, mas garanti que continuaria a ir lá de vez em quando. Na verdade, continuo a fazê-lo quase com a mesma frequência, mas agora, com um sabor mais especial. A Maria fica ainda mais contente por me ver.


Há tempos contratou uma nova empregada para servir à mesa, a Sara. Passaram várias por lá, mas nenhuma se aguentou muito tempo. A menina Sara, que é como a trato, já que ela me trata por Sr. Miguel, é muito alegre e competente, mas não é por causa dela que lá vou. Acho que tanto ela como a Maria o sabem. A Maria é apenas meia dúzia de anos mais velha do que eu, ou talvez nem tanto. Não poderia ser minha avó. O afeto que temos um pelo outro é o que me faz manter a assiduidade. Gosto de ver aquele brilhozinho nos seus olhos quando lá vou.


Na semana passada fui lá outra vez. Não tinha ido na anterior e não podia deixar o ano findar sem lá voltar. A Maria, como sempre, apareceu a meio da refeição para, com a sua doçura, saber se tudo estava bem. E é sempre um prazer quando isso acontece. Quando fui ter com a menina Sara para pagar, assomei-me à porta da cozinha para desejar Boas Festas à Maria. Parecia que já estava à espera deste momento. Tive vontade de a abraçar, mas não seria apropriado expressar este sentimento, muito menos com a sua ajudante ali ao lado olhando-nos de soslaio, nem com a menina Sara nas minhas costas. Mas o meu desejo acabou por ser parcialmente satisfeito quando a Maria sugeriu dar-me dois beijinhos e eu ter prontamente acedido. Contudo não reprimi a minha vontade de, ao beijar-lhe as faces, lhe cingir levemente a cintura. Não fui inocente como teria sido um neto. Nem tão pouco o foi a Maria. Mas o momento terminou. Apenas os sorrisos permaneceram. Despedi-me da menina Sara, que finge nada disto perceber, e fui-me embora afastando da ideia a hipótese sensata de deixar de ver a Maria.


 


 


 

16 setembro 2022

Dor

(para a M. S.)


 


Amei muito uma mulher,


que me causava grande dor.


Até que um dia, sem querer,


se evaporou o meu amor.


 


Hoje não tenho ninguém


que me cause aquela dor,


mas a dor que daí vem


é pior que a anterior.


 


 

03 junho 2022

As flores do jardim

 


Este mundo é um jardim


onde há muita flor bonita.


Gosto muito do jasmim,


da orquídea e da tulipa.


 


E nem sei lá muito bem


de qual delas gosto mais.


Mas não ferem ninguém


as preferências naturais.


 


No que respeita a gente,


não foi assim que se fez.


Decretou-se sabiamente


uma amar de cada vez.


 


Acontece que o amor,


é como a erva daninha:


irrompe com seu vigor


onde menos se adivinha.


 


E se brota outra flor


que encanta o meu ser,


o que me causa mais dor


é não a poder colher.


 

13 maio 2022

O teu rosto

Nunca vi o teu rosto,
nem tão-pouco quero vê-lo.
Do que o havia suposto
não vá ele ser mais belo.

Se não o vendo me é penoso
refrear minha paixão,
se se revelar formoso,
vai ser mortificação.

Pode ser que seja feio,
com a boca retorcida,
dentes tortos de permeio
e com lábios em ferida.

Se for desta natureza,
talvez possa ofuscar
tua restante beleza
e eu suporte te amar.


 


 

23 abril 2022

A empregada do café

Imagem gerada por IA

Tenho por hábito, ao fim-de-semana, tomar café a meio da manhã. Há uns meses resolvi experimentar um café ao pé de minha casa que reabrira depois de um confinamento já não sei de quanto tempo. O café é bom, mas o que mais me agradou foi uma das empregadas que lá trabalha. Apesar de usar sempre máscara, vê-se que é jovem e tem uma silhueta que roça a perfeição. Escusado será dizer que adotei este café como local de culto. O café ali é mesmo bom...


Há cerca de um mês vi-a pela primeira vez sem máscara. Não foi uma grande decepção, mas tinha uma fisionomia completamente diferente da que construira nas semanas anteriores. Bastante menos bonita, mas já nada havia a fazer... Já me tinha afeiçoado a ela e rapidamente passei a gostar do seu rosto e a habituar-me a ele, pois quando simpatizamos com uma pessoa gostamos das suas características independentemente do respetivo feitio. Apesar de ela ser de poucas conversas, tal como eu, era sempre um prazer lá ir. Mesmo não recebendo de sua parte sinais de atenção ou de simpatia.


Hoje, quando lá cheguei, ela estava a limpar uma mesa da esplanada. Procurei dar-lhe os bons-dias, mas ela não olhou para mim, apesar de ter ficado com a certeza de que me vira. Pedi o café ao balcão e ela acabou por se aproximar, mas apenas para registar qualquer coisa no écran táctil, mais uma vez sem me dar oportunidade para a cumprimentar. Como se tornou regra, dirigi-me para uma mesa alta, cá fora, para o tomar sem me sentar. Neste período apenas a vi à distância e, quando decidi ir-me embora, levei a chávena ao balcão mais para ter nova oportunidade de me cruzar com ela do que por amabilidade, embora costume ter esta atenção noutras ocasiões.


Como desejara, nesse momento, vi-a vir na minha direção e preparei-me para me lhe dirigir. Tal não foi necessário porque, antes que isso acontecesse, fez-me o sorriso mais bonito que alguma vez eu pudesse desejar, o qual se espelhou imediatamente na minha cara. Nem foram necessárias palavras para que os votos de bom-dia fossem proferidos. A emoção que tive foi de absoluta felicidade e comecei logo a congeminar futuras abordagens.


Não sei porque preciso tanto de momentos como este. Destas massagens no ego. Talvez por precisar tanto deles ando constantemente a procurá-los. Em geral acontecem quando menos espero e com uma frequência muito inferior àquilo que desejava. Mas quando acontecem, parece que fico nas nuvens, o que compensa a sua raridade. E a vontade de os deixar escritos talvez se prenda mais com o receio de os esquecer do que com a alegria em partilhá-los. Em relação a ela, até aqui eu seguia pelo carreiro, apesar de pisar nas ervas de vez em quando. Com o percalço de hoje fiquei com mais vontade de dele me desviar, apesar de saber que o precipício está mesmo ali ao lado. Uma coisa é certa: vou continuar a tomar café neste lugar...


 


 

23 dezembro 2021

Na cozinha

 


Se te sentires sozinha


podes vir ter comigo.


Sentamo-nos na cozinha.


Faço dela teu abrigo.


 


Ponho água a aquecer


para fazer uma infusão.


Se quiseres podes dizer


o que te moi o coração.


 


Enquanto não ferver,


se quiseres, podes chorar.


Isso basta para entender.


Não precisas de falar.


 


Quando voltar do fogão


ponho na mesa a chaleira,


faço a preparação


e sento-me à tua beira.


 


E melhor do que contar


podes somente a cabeça


no meu ombro encostar


até que o mal desapareça.


 


Então, como a uma criança,


te aperto contra o meu peito


abandonando a lembrança


de que o chá já está feito.


 


 

18 dezembro 2021

Prazer e amor

18-12-2021


Ditoso o homem que é amado por uma mulher como tu!
Que tem prazer em dar prazer, mais até que em receber.
Mas saber o quão tu gostas das mais íntimas funções
faz-me gostar ainda mais dessas movimentações.
E se o que dá mais contentamento é o prazer que entregamos,
não será também amor aquilo de que falamos?
E é nestas reflexões que me ponho a imaginar
o que poderemos fazer quando eu aí chegar...

Agarrar-te por detrás e palpar
a pele macia das tuas nádegas.
Cingir-te a cintura e afagar o teu umbigo.
Livrarmo-nos do que resta de tecido.
Encher as minhas mãos com os teus seios,
que nesta postura são suspensos
e tão duros que farão prolongar meus devaneios.
Sentir os teus mamilos nas palmas das minhas mãos
e fazê-los deslizar até às pontas dos meus dedos.
Beijar a tua nuca e deslumbrar-me com as tuas formas,
enquanto o membro, mais rijo que um madeiro,
só pensa em se deitar no leito que já lhe abriste,
atestado p'lo meu tato, que, entretanto, consentiste.


E quando constatar
que não queres mais esperar,
metê-lo todo, devagar,
segurando as tuas ancas,
que vão servir de alavancas
para te puxar ciclicamente
de encontro ao meu ventre.
E nestes movimentos,
para trás e para a frente,
recuando o mais possível,
p'ra ter mais por onde entrar,
demoraremos a gozar.
Prestes a explodir, e louca de desejo,
voltas-te para mim,
para te dares como uma puta,
de pudores devoluta,
gemendo por mais vigor,
misturando prazer com dor.
E, sem mais me aguentar,
martelar sofregamente
até te vires intensamente
e o cabo rebentar.


Olharei depois para ti,
para a beleza do teu rosto,
deliciando-me com os teus olhos,
inebriando-me com o teu cheiro,
contemplando a perfeição
de tão bela criação,
que aos Céus agradeço
sabendo que não mereço.


 

Este texto não é sobre gajas

  Tem uma vida profissional difícil de suportar? Não se sinta só. Provavelmente não é tão difícil como a minha. A minha é uma seca, mas uma ...