(para a M. S.)
Amei muito uma mulher,
que me causava grande dor.
Até que um dia, sem querer,
se evaporou o meu amor.
Hoje não tenho ninguém
que me cause aquela dor,
mas a dor que daí vem
é pior que a anterior.
(para a M. S.)
Amei muito uma mulher,
que me causava grande dor.
Até que um dia, sem querer,
se evaporou o meu amor.
Hoje não tenho ninguém
que me cause aquela dor,
mas a dor que daí vem
é pior que a anterior.
(Continuação)
Um pouco antes das 19:00 já estava à porta da clínica à sua espera. Não sabia bem o que lhe iria dizer. Não sabia o que iria fazer caso me quisesse. Não sabia se estava na disposição de deixar a minha família ou se isto era apenas uma loucura. Só sabia que não a queria perder. Mas todas estas dúvidas foram desnecessárias. Ela saiu em linha recta. Com os óculos escuros já postos. Parecia um foguete. Tive que interpelá-la, caso contrário ela seguiria o seu caminho. Percebi logo tudo, claro. Com um ar carregado poupou nas palavras e acabou dizendo-me que estávamos conversados. Eu, sem ter também retirado os óculos escuros, pois não queria que visse os meus olhos sem que pudesse ver os seus, disse-lhe adeus e, orgulhosamente, fui-me embora sem me voltar para trás. A dor que senti foi então lancinante. Comprei um maço de tabaco e deambulei durante mais de uma hora, fumando cigarro atrás de cigarro. Não conseguia chorar. Os meus olhos estavam tão secos como todo eu estava seco.
Nada disto batia certo. A Susana da tarde nada tinha a ver com a da manhã. O facto de ter escondido os olhos por detrás daquelas lentes não ocultou a tristeza que consegui ver nela. Nunca me conformei com este desfecho. Tinha a certeza, admitindo sempre que pudesse estar enganado, de que a sua atitude tinha sido meramente racional. Sabia que se ia casar no mês seguinte. Não o soube por ela, pois nunca a ouvira tocar nesse assunto. Soube-o pelas suas colegas. Não acreditava no seu amor por ele.
Andei sem saber o que fazer. Alimentava uma esperança de a encontrar casualmente pelo que a procurava em todos os sítios para onde ia. Sabia que nos cruzávamos no caminho, em sentidos opostos, pelo que procurava o seu carro entre as centenas que passavam por mim. Por duas ou três vezes a vi, mas de que me servia isso? Perdi o sono e nessas insónias ia elaborando uma carta de despedida para lhe enviar. Andei a escrevê-la às escondidas durante todas as férias de verão. Quando achei que estava pronta, transcrevi-a para papel de carta, para que fosse com a minha letra. Coloquei-a num envelope ligeiramente elaborado, mas sem o perfumar. Enderecei-a a si, mas com ambos os apelidos, o de solteira e o de casada, pois já se encontrava há quatro meses neste estado. Como já sabia a sua hora de saída fui colocá-la, um pouco antes, no para-brisas do seu carro. Tive que me resguardar nas imediações para ter a certeza de que a carta chegava a bom porto. Ela deve ter percebido de imediato de quem era a carta e ainda olhou em seu redor a ver se encontrava o presumível autor, mas não me viu.
Nesse mesmo dia, tal como adivinhara, bloqueou-me nas redes sociais, e nunca mais me lhe dirigi. Continuava inconformado, apesar do tempo que já tinha decorrido desde a última vez que nos víramos. Não havia meio de passar esta minha azia, mas nada mais podia fazer. Foi muito difícil suportar os meses seguintes. Pensava muito nela. Revisitava todos os momentos vividos com ela. Tentava compreender o que se tinha passado e continuava a procurá-la nos sítios para onde ia. Podia ter ido ter com ela ou tê-la contactado utilizando outros subterfúgios, mas sabia que isso a iria afastar ainda mais de mim, pelo que nunca mais a procurei ativamente. Contudo mantinha uma esperança inabalável de que a iria encontrar e de que iríamos finalmente poder cair nos braços um do outro. Pensava na carta que lhe tinha escrito, que acabei por perder o original, por se ter danificado o respetivo ficheiro. Imaginava como teria reagido. No que estaria a sentir. O que teria feito à pequena medalha que lhe havia enviado dentro da carta dizendo-lhe que me tinha acompanhado, ao peito, durante metade da minha existência. Se a usaria ou se a teria deitado fora ou arrumado no fundo de uma gaveta. Por vezes ainda me questiono sobre isto.
Não sei. Nunca mais a voltei a ver. Não acreditava que o destino me iria pregar uma partida destas, mas, a partir de certa altura, comecei a perder a esperança de reencontrá-la. Andei insone e deprimido durante meses. Parei no tempo durante anos. Até me dar conta de que já estava muito mais velho, sem me ter apercebido de como o tempo tinha passado... apenas ao fim de cerca de três anos me apercebi de que não havia pensado nela no dia anterior. Estava finalmente curado! Mas a tristeza e a angústia perduraram por muito mais tempo...
A Susana foi a maior paixão da minha vida. Talvez nunca tenha amado tanto uma mulher como a ela. Foi a mulher que mais me fez sofrer, mas também a que proporcionou dos mais felizes momentos que tive a sorte de experimentar. Hoje em dia raramente penso nela. E quando penso já não me causa sofrimento. Gostava de voltar a encontrá-la, mas já não tenho ilusões.
Uma década depois já não me é penoso falar da Susana. Convivi com ela apenas quatro meses, mas foi o tempo suficiente para que a minha vida nunca mais fosse a mesma. O destino, tão depressa me ofereceu a oportunidade de conhecer e amar tão intensamente uma mulher, como roubou para sempre aquilo que parecia vir a ser eterno.
A Susana foi a fisioterapeuta que reabilitou o cotovelo a que tinha sido operado. Não era a única naquela clínica, nem tão-pouco me estava atribuída. Ficava com ela como podia ficar com qualquer uma das outras. No início achei-as todas bonitas. Era um sítio onde qualquer homem se sentiria bem. Mas a Susana era de uma beleza invulgar. Não no sentido de ser mais bela do que o normal, mas sim pela sua especificidade, possuindo traços muito próprios e muito agradáveis. Fui-me afeiçoando a ela. E ela também se foi afeiçoando a mim.
Quatro meses depois decidi interromper a terapia por força de ter mudado de emprego. Apesar da insistência da sua parte em continuar os tratamentos, já que não implicava um desvio por aí além nas minhas deslocações casa trabalho, quis aproveitar para o fazer, pois a situação entre nós parecia estar a tomar um rumo que, apesar de muito o querer tomar, não podia permitir. Nas últimas semanas antes de sair tudo evoluía de uma forma muito rápida. Comecei a perceber que me estava a apaixonar por ela, por causa do aperto que experimentava sempre que pensava que não a ia ver mais. Não queria que o último dia chegasse e sentia que o mesmo se passava com ela.
Numa das últimas sessões fez-me um exercício que nunca havia feito antes, o qual exigia que pegasse na minha mão. Não estava a acreditar no que estava a acontecer! Aproveitando aquela oportunidade, e após uma grande hesitação, por medo de ser rejeitado, atrevi-me a apertar a sua mão na minha. Não sei por quanto tempo permanecemos assim. Tinha fechado os olhos e entrado numa espécie de transe, num desfrutar de um gozo pleno que nunca antes tinha sentido. Só voltei a mim quando a Susana decidiu terminar o exercício e me apercebi de que, quando tentou libertar-se da minha mão, esta se entrelaçara na sua, não se querendo deslargar.
Quando chegou a última sessão, em que passámos o tempo a falar da minha eventual continuidade, acabámos por nos despedir sem demasiada efusão. Apenas com dois inocentes beijinhos, o que já foi fora do habitual. Quando me vi cá fora, sabendo que nunca mais a ia ver, senti uma amargura como nunca tinha sentido antes. O mundo ficou para mim, de repente, completamente cinzento. Nada perecia fazer sentido. Parecia que tinha morrido. A sessões eram à hora do almoço. Ainda fui trabalhar à tarde, não sei como, tal era a tristeza que sentia. Decidi então que isto não podia ficar por aqui. Que sentido tinha tido esta conjugação de astros se era para terminar desta maneira?
Acabei por encontrá-la nas redes sociais e por lhe enviar uma mensagem inocente. Respondeu-me, também inocentemente. Na quarta vez que lhe escrevi, já sem receber resposta às anteriores, deixei de ser inocente. Escrevi-lhe a correr, dizendo-lhe que só me apetecia ir ter com ela, que não sabia o que se estava a passar comigo, que já não tinha idade para estas coisas. Tinha de ir vê-la. Não suportava o seu silêncio. Tinha de saber o que sentia por mim. Ainda fiz por várias vezes, ao fim do dia e em vão, os 30 km que nos separavam para ver se a encontrava. Só quando decidi fazê-lo à hora do almoço é que isso acabou por acontecer. Ela estava a regressar à clínica enquanto eu esperava, próximo da porta. Quando me viu ficou espantada. Apanhei-a completamente desprevenida e, sem tempo para pensar. Acabou por ter uma reação que era tudo menos de quem não me queria ver. Ia ao seu lado uma colega, que eu também conhecia que, perante tal reação, se sentiu a mais e prosseguiu o seu caminho, sem sequer me cumprimentar. Como vi que não tínhamos tempo para conversar, perguntei-lhe a que horas saía para nos encontrarmos nessa altura. Ela estava com um sorriso radiante e um brilho nos olhos que jamais esquecerei. E eu explodia de alegria por dentro. Mal consegui trabalhar nessa tarde ansioso para que o tempo passasse.
(Continua)
Depois daquele que seria o dia da nossa despedida escrevi-te por quatro vezes mas com silêncio me respondeste.
A tua resposta foi a que não queria porque nada disse mas tudo podia dizer.
Quando te voltei a escrever, dizendo-te o quanto queria voltar a ver-te, e pedindo-te que me respondesses, mais uma vez continuei sem saber o que pensavas.
Esse teu silêncio podia querer dizer tanta coisa...
Que não gostavas de mim, que te esquecesse ou, então, aquilo que não podias dizer.
Fui ter contigo para saber.
Quando te perguntei a razão de nunca me teres respondido disseste-me apenas que o silêncio é também uma resposta.
Então, pelo teu sorriso e pelo brilho no teu olhar senti que sendo de outro a tua mão não o era o coração.
A alegria no momento foi imensa, mas a dor posterior quase impossível de suportar.
O nada que disseste tudo podia dizer.
Tem uma vida profissional difícil de suportar? Não se sinta só. Provavelmente não é tão difícil como a minha. A minha é uma seca, mas uma ...