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16 março 2026

Coração fraco

Está a acontecer o que temia. Depois da novela "A senhoria", sobre a qual me debrucei no post anterior, sucedeu-se "Polzunkov" e depois a que deu nome a esta compilação: "Coração fraco". Desde que comprei este livro que andava com maus pressentimentos em relação a esta novela. Pelo título, dada a natureza do meu coração, pressenti que não sairia ileso da sua leitura. E mais apreensivo fiquei depois de ler "A senhoria". Ainda não acabei de ler "Coração fraco" e já sei como vai terminar...

Quando iniciei a sua leitura vi logo no que é que ia dar. E, a cada página que virava, com mais certeza ficava, confirmando todos os receios que antevera. A história começa por mostrar a forte relação de amizade entre dois jovens, um mais impulsivo, de coração mais fraco digamos assim, e outro mais sensato. Vássia e Arkádi. O primeiro estava eufórico e ansioso por, finalmente, poder contar ao amigo que se ia casar. Facto de que o outro nem suspeitava porque Vássia nunca lhe falara da sua adorada namorada, de há apenas quatro meses, não fossem as coisas correr mal. Com estes ingredientes em cima da mesa, já estava a ver qual iria ser o prato principal. Ainda assim fui continuando a sua leitura, na esperança de que estivesse enganado.

À medida que ia lendo ia revivendo um episódio que se passou não há muito tempo, talvez há uns dois anos, que muito me perturbou. Estava eu muito bem com o meu irmão quando a Catarina apareceu, sem ter reparado em nós, mas a fazer algo que chamava a atenção. Adivinhando já o que se ia passar, embora com alguma esperança de que não acontecesse nada, o meu irmão, que nunca a tinha visto, nem podia supor que eu pudesse ter algum interesse nela, voltou-se para mim e sussurrou-me "aquela ali não é nada de se deitar fora". Foi como se estivesse estado cego o tempo todo e os olhos se me abrissem naquele instante. Um cenário que ainda não se me colocara apareceu de repente à minha frente, com todos os detalhes e tão bem definidos que era como se estivesse a acontecer. E que dor aquilo me causou. Foi como se tivesse visto o futuro. Vi a Catarina e eu numa relação, muito apaixonados um pelo outro, até surgir a inevitável altura em que é apresentada à família. E aqui, como uma revelação, ou como um aviso, foi como se tivesse a certeza de que o meu irmão se tornaria o incontestável alvo de todo o seu amor.

O meu irmão é o melhor dos rapazes, de quem, acreditem, não guardo nenhum rancor. Não tem culpa de que toda a gente goste dele... Não faz esforço nenhum para que isso aconteça. Nunca me senti traído por ele. Ele tem qualquer coisa de especial, uma aura digamos, que atrai toda a gente. Gente e não só. A minha cadela, por exemplo, até salta quando o vê. Por outro lado, eu, um cidadão comum, tenho o condão inverso. O menos nobre sentimento que tenho por ele é uma ponta de inveja, por não ter saído mais como ele. Foi por isso que me surgiu este receio em relação à Catarina. Muitos pensamentos invadiram então a minha cabeça. Desde dar graças por nunca ter tido nada com ela e assim nunca a poder perder, a imaginar subterfúgios para que os dois nunca se viessem a cruzar.

No ponto da narrativa em que me encontro Vássia já levou Arkádi a casa da noiva. E, claro está, este ficou apaixonadíssimo por ela. Todas as minhas suspeitas se estão a confirmar e avançar na leitura desta novela está a tornar-se cada vez mais penoso.  Até pode ser que não, que tudo acabe em bem. Mas já todos percebemos o que vai acontecer, não percebemos? Nem quero imaginar o que Vássia vai sentir...

Se em "A senhoria" fui confrontado com uma realidade "igual" à que tive recentemente, cujo tema é o amor não correpondido, ou a rejeição,  em "Coração fraco" estou a encontrar outra realidade, ainda mais dolorosa, que a todo o custo tento evitar, que é a do ciúme, da traição. É de tal ordem a minha fobia a esta dor que as maiores decisões da minha vida foram por ela condicionadas.

Agora expliquem-me lá, adeptos das ciências ocultas, como é que eu pude ter este pressentimento em relação a esta novela? Como é que pressenti que estava perante um texto que me iria abrir a ferida mais dolorosa que tenho? Para a coincidência de ”A senhoria” encontrei uma explicação. Para esta premonição confesso que não estou a ver.



27 fevereiro 2026

A senhoria

Ultimamente tenho ouvido muito falar em extraterrestres, reptilianos, viagens no tempo e outras coisas que envolvem um mundo escondido e camuflado que se mistura com o nosso.  Ontem tive a prova de que isso é verdade. Fiódor Dostoiévski é um desses seres. Que ele era genial já sabia, tal como toda a gente. Ontem, ao concluir a leitura da sua novela "A senhoria", descobri que ele é muito mais do que isso: O Fiódor viajava no tempo! Esta verdade escancarou-se perante mim. Se a ler, caro leitor, verá de que falo verdade. Está lá tudo o que se passou entre o Miguel Lucas e a Catarina! À medida que ia lendo a novela ia ficando com esta certeza, estupefacto com as semelhanças que ia encontrando. Cada vez mais me ia convencendo de que estava perante a revelação do meu futuro! A avidez por chegar ao fim ia-se misturando com a reserva em me deparar com um final que não queria para mim, apesar de o ser já óbvio para toda a gente…

Se quiser ler a novela, caro leitor, o que recomendo, aviso-o desde já que este texto contém spoiler. Se porventura já tiver lido a novela, e se conhece o que escrevi, poderá constatar por si mesmo se tenho ou não tenho razão. 

Vejamos: O Ordinov conhece a Katerina numa igreja; fica embasbacado com a sua beleza, com os seus olhos e cabelos negros contrastando com a sua clara pele; com os seus modos. Neste ponto fiquei logo admirado com as coincidências.  E ainda nem sabia o nome dela... O próprio Ordinov tem muitos aspetos da sua personalidade com os quais me identifiquei: É introspetivo, solitário, infantil, sonhador, com dificuldades em se relacionar com o mundo exterior…

Mas prossigamos. Esta Katerina também tem uma relação com outro homem. Que também nunca se percebe muito bem como é.  Que nunca se percebe se o ama ou não.  E essa dúvida vai atormentando Ordinov o tempo todo. Ele vai percebendo sinais de que é amado por ela e, apesar de encontrar no seu homem um obstáculo, sente que este vai ser ultrapassado. Que o seu sonho se vai tornar realidade…

Quer mais evidências, caro leitor? No final ela surpreende Ordinov, e a nós que lemos a novela, revelando-lhe desprezo e escolhendo regressar à sua terra com o seu homem, deixando Ordinov na mais completa amargura… O Ordinov misturou a realidade com as suas fantasias sem conseguir distingui-las. E esta foi também a minha história!

É verdade que não é só minha, o que só por si não seria suficiente para tirar estas conclusões acerca de Fiódor Dostoiévski. Mas foi a sua desfaçatez em não disfarçar nada, dando à sua personagem o mesmo nome, a mesma beleza, os mesmos comportamentos, sabendo que eu ia ler a sua novela, que me fez ter a certeza destas minhas afirmações. Nunca lhe perdoarei o gozo que teve à minha custa pelo facto de eu, não sendo da sua raça, não poder ir ao passado para lhe ir apertar o pescoço!


 


 

18 novembro 2025

Apaixonei-me por ti

Apaixonei-me por ti
não me envergonho deste desaire
pelo contrário
tenho tanto orgulho em gostar de ti
que me apetece gritá-lo aos quatro ventos
numa estação de metro à hora de ponta
ou escrevê-lo em letras garrafais
de uma manga à outra do Cristo Rei
Para toda a gente saber
que és tu
a mulher que amo.

 

14 outubro 2025

O que foi deliberado

 

Tenho de te esquecer!
Foi o deliberado por unanimidade
na assembleia de neurónios.

Tento convencer-me,
para ser mais fácil,
de que não gostas de mim,
de que me consideras mesquinho,
um vil praticador de assédio,
como por aí há tantos agora,
se calhar também eles
com a ilusão de que são amados,
pobres coitados.

Mas como posso esquecer-te
se quando passo por ti
olhas para mim assim?

Este ponto não foi discutido.
E muito menos quiseram ouvir
o que o coração tinha para dizer.
Senão, teria ficado lavrado,
nem que fosse escrito à mão,
Que, por razões de prevenção,
o decreto de te esquecer
teria de ser revogado.

 

 

08 outubro 2025

Para sempre

Imagina que, por capricho do destino, as portas que nos separam se escancaravam de par em par, deixando-nos livre o acesso um ao outro. Imagina que eu as atravessava para ir ao teu encontro e que tu me recebias. Imagina ainda que começávamos a dar-nos e a conhecer-nos e que tudo aquilo com que sempre sonháramos começava por fim a acontecer.

Se tudo isso finalmente acontecesse, será que irias encontrar em mim a mesma pessoa que imaginavas que eu era? Mostrar-te-ias tu uma pessoa diferente daquela que eu imaginava que serias? E o que faríamos nessa altura? de que passaríamos a conversar? De que nos iríamos rir? Como nos iríamos abraçar? Dois estranhos um para o outro.

O melhor é que o destino não intervenha. Que se deixe ficar quietinho lá onde estiver e que eu e tu continuemos a ser um para o outro aquilo que sempre fomos um para o outro. Que as nossas conversas, os nossos risos e os nossos abraços continuem a acontecer, de forma real, nas nossas cabeças. Que tu continues a ser a mulher mais especial que alguma vez conheci. Para sempre.

 

06 julho 2025

Dizes?

 

Diz-me só quando vai ser, dizes?

Diz-me só se ainda falta muito

ou se está quase, dizes?

Só para saber

quanto tempo ainda tenho

para não desistir de ti.

Dizes?

 

17 junho 2025

E fogo sem fumo?

O meu amor é um fogo

que se ateia sempre que te vê.

Rarefeito de ti

torna-se uma espessa nuvem

de fumo negro

que me engole e sufoca

sem nunca se dissipar

até à hora em que,

por mais que demores,

ele te volta a ver.

Fumo sem fogo não há.

Fogo sem fumo

meu amor nunca viu.

 

 

 

11 junho 2025

Na Igreja

Para a missa dominical
a igreja se adornou:
transformou-se em catedral
no momento em que ela entrou.
 
Sua pele de marfim
toda a nave iluminou.
Todo o pedaço de mim
com sua luz se embriagou.
 
Do cabelo o negror,
que a branca tez debrua,
realçou o seu esplendor
como a noite faz à lua.
 
Assim Deus me encontrou:
perdido e d'Ele alheado.
E sua cabeça abanou
por tê-la tão bela criado.

 

 

 

21 abril 2025

Era só isto que queria saber

Quando vais àquele lugar,

que costumo frequentar,

ficas por mim a ansiar?

Ou rezas para eu não estar?

Ou nem sequer a ocupar

teus pensamentos vou chegar?

 

Porque quando venho a entrar,

por mais que tente afastar

o desejo de te encontrar,

não consigo sossegar

enquanto não te avistar.

Era só isto que queria saber.

 

 

14 abril 2025

Chegou a hora

Chegou a hora de fechar o salão.
Já todos se foram embora.
Lá fora, soube, ela vai prometer
fidelidade até que a morte os separe.
Só eu resisto, sentado, tamborilando o balcão
Relutante em abandoná-lo definitivamente.
Esperando que ela se tenha esquecido de algo.
Que volte, e ao fazê-lo mude de ideias...
Ela não vai voltar.
E se o fizer, não mudará de ideias.
Vou saldar a conta.
Não posso mais cá voltar.

 

 

05 março 2025

Catarinazinha

Catarinazinha,

Que estúpido eu fui em ter-te escrito. Se não o tivesse feito, tudo o que aconteceu entre nós, que foi tanto tendo sido quase nada, talvez estivesse já a desvanecer-se. Mas não. Pus-te ao corrente. Evidenciei o problema. E agora já não é possível voltar atrás. Há provas escritas. Tu sabes o que eu sei. Como posso esquecer uma coisa sabendo que ela pode não ser esquecida por ti? Ter-te escrito ditou a perpetuidade da situação. Ou, pelo menos, de a prolongar mais do que seria desejável. O mal está feito! Resta-me roer-me de saudade quando não te vejo ou de privação quando te vejo sem que possa estar contigo. Ainda por cima agora quase não te vejo. Se ao menos quisesses quebrar as regras... Mas tens sido exemplar. Procuras estar sempre fora do meu campo de visão e eu nem contemplar-te ao menos posso fazer. Só isso me bastaria, Catarina. Não quero mais que isso. Amo-te tanto. Como pude deixar-me chegar a este ponto, meu amor... Os dias passam, as semanas e os meses passam, mas não há meio de passar a tua presença dos meus pensamentos.

Beijo, Miguel

 

17 janeiro 2025

Talvez te venha a esquecer

 
Talvez te venha a esquecer.
Para já, não vou forçar.
Vou deixar de me importar
com a dor de não te ter.
 
Se te vir, vou deleitar-me;
Quando não, vou te ansiar.
Se sorrires estás a abraçar-me;
Se me olhares, um beijo a dar.
 
Hoje não te dás permissão 
pra me sorrires ou olhar,
mas sinto que o teu coração 
fica à porta a espreitar.
 
Para mim já não te viras,
mas eu digo que é por dever,
que no fundo estás a sofrer,
e tudo o resto são mentiras.
 
 

13 dezembro 2024

Quem me dera simplesmente esquecê-la

Não estou a conseguir esquecê-la. Ou melhor, não estou a conseguir querer esquecê-la. Nas minhas esporádicas orações, quando estou para pedir ajuda para a esquecer, vacilo. Receio que o meu pedido seja atendido e, no íntimo, quero é pedir para que ela goste de mim... Não estou mesmo a conseguir querer abrir mão dela. Não me convenço de que nunca sentiu nada por mim. E convenço-me de que ainda sente... agarro-me às expressões que percebi no seu rosto, aos brilhos que encontrei nos seus olhares, à ansiedade que vi nos seus gestos... Nada disto foi adivinhado por mim. Não foi delírio nem imaginação minha. Tenho a certeza de que foi real. O meu erro deve estar em não aceitar que os sentimentos mudam. Que por vezes não são certos e que percorrem caminhos erráticos. E isto pode e deve ter acontecido com ela.

Não acredito no seu amor pelo seu homem. Nunca acreditei. Mas é o homem que escolheu. É o que lhe pode dar conforto, lhe pode dar a mão. A pode amar. Eu não posso. Então o mais lógico seria centrar-me naquilo que tenho. Seria, nos meus momentos de recolhimento, deixar de pensar nela. Passar definitivamente uma esponja sobre ela. Só que, quando vejo o seu rosto, fotografado no meu cérebro como se estivesse à minha frente, como o vi na semana passada, ou na outra, e que fica gravado com tanta nitidez, dou-me por vencido. Porque as emoções que tenho quando a vejo, ávido por detectar o mais pequeno sinal seu, são difíceis de conter em mim. Sinto-me virar-me do avesso. Sinto o meu coração desinquietar-se. A respiração suspender-se. O peito ficar a doer-me. O tempo a alongar-se. O espaço a enevoar-se, deixando visível apenas ela. E vê-la é a mais maravilhosa experiência que se pode ter. E não quero deitar fora estes sentimentos...

Como é difícil um rico entrar no reino dos Céus... Como foi difícil para Judas abdicar dos trinta dinheiros. Não foi capaz. A minha riqueza é ela. Por causa do que me faz sentir. E não estou a querer sair deste inferno... Se verdadeiramente a amo tenho de desistir dela. Deixá-la ser feliz com a sua família. E colocar o meu futuro nas mãos de Deus. Ser perseverante. Confiar que Ele me deu o que é melhor para mim. E que, se houver algo melhor, a seu tempo Ele mo dará. Aceitando com humildade que pode não ser aquilo que agora quero. Parece ser tão fácil quando se pensa nisto desta forma tão racional... Quem me dera esquecê-la… naturalmente, sem custo. Simplesmente deixar de a desejar... amo-a tanto, porra!

 

 

06 novembro 2024

Quero dizer-te uma coisa

Quero dizer-te uma coisa.
Uma coisa que nunca disse a ninguém,
por não ser possível ou por não ser verdade.
Quero dizer-te que é contigo que estou
quando abraço a minha almofada.
Que são os teus cabelos que me cobrem
no lugar do meu lençol.
Que são os teus lábios que ficam nos meus
e não as costas da minha mão.
Mas é uma só coisa o que te quero dizer.
O que quero mesmo dizer-te é que te amo!

 

29 outubro 2024

Je suis malade

Ouvi esta música pela primeira vez no sábado passado, no rádio do carro, durante o programa "Hotel Califórnia" do Júlio Isidro e do Paulino Coelho. De imediato me identifiquei com o título e com a melodia da canção. A circunstância não era para menos: estava a regressar a casa tendo-me desviado do caminho mais direto só para passar pela rua onde há dias vi entrar a mãe da Catarina...

Não compreendi logo a totalidade da letra pelo que, assim que saí do carro, procurei a sua tradução. Mais bem informado do significado daquelas palavras, ainda mais identificado me senti, principalmente com os seguintes versos regurgitados pelo seu autor e intérprete, Serge Lamas: "Privaste-me de todas as minhas músicas. Esvaziaste-me de todas as minhas palavras, mas eu tinha talento".

Também eu estou doente. Mas não ponho as culpas exclusivamente no meu amor pela Catarina. Começou muito antes. Talvez na minha adolescência, com uma decepção que me abriu uma grande ferida. Ou então na que vivi em 2011, com a Susana. Nesta altura estive três anos bastante doente. Gradualmente fui recuperando, mas nunca mais voltei a sentir entusiasmo pela vida.

Nem mesmo depois de me apaixonar pela Catarina. Não é com um amor ilícito que se alcança a felicidade... Apesar da esperança, que permanecia dentro de mim, como se o impossível naquele momento se viesse a tornar possível dentro de pouco tempo. Somente com a sua gravidez me deparei com a dura realidade. E também com o facto de ela ter decidido a partir dessa altura nunca mais olhar para mim...

Je suis malade, complètement malade. De que me vale calcorrear os seus caminhos? Procurá-la onde antes a encontrei? De que me vale pensar que ainda não está tudo acabado?

Por coincidência vi-a neste mesmo sábado, ao fim da tarde, depois de uma ausência de seis semanas, sim, que as fui contando. Seis semanas de uma ausência que culminou noutra, ainda mais tenebrosa: A ausência do seu olhar... sei que ela me viu, mas manteve-se determinada na sua decisão. Senti-me inebriado com a sua presença, mas ao mesmo tempo devastado com a ausência da sua alma. Observá-la foi como deslumbrar-me com uma obra de arte ou como se me tivesse aparecido um anjo... A minha alma ria, mas ao mesmo tempo o meu coração chorava. Estou doente...

E a prova disto são as ideias que me surgem quando olho pela janela do meu 5º andar. Mas não se preocupem comigo, que não farei nenhuma loucura. Não tenho coragem para tal. Nem que escolhesse uma forma menos dolorosa. Tenho medo de que a minha alma venha a errar num limbo ainda mais insuportável do que este em que me encontro. Dizem que quem se mata o faz por cobardia, mas não concordo com isso. Fazem-no por desespero. Cobarde sou eu e este é o defeito que mais detesto em mim. A par da moleza e da preguiça.

Eu tinha talento. Mas enterrei-o e cada vez se encontra mais fundo. Dei ouvidos à legião dos que me desvalorizam e cobri-me com as vestes de um falhado. Deixei-me vencer por uma legião da qual talvez só seja real o seu implacável comandante, que sou eu. Deixei que a minha letargia se me colasse à pele como se fosse um traço da minha personalidade, quando mais não é do que um estado de alma. Por estar doente. Completamente doente. E não saber como me curar.

 

17 agosto 2024

Beijos

Nos beijos que lhe dou


tento em ti não pensar,


mas por mais que dela goste


e que goste de a beijar,


são saudades, aqueles beijos,


dos que não te pude dar.


 


 

22 março 2024

Se o mundo amanhã acabasse


Se soubesse que o mundo

amanhã ia acabar,
não perderia um segundo
para te ir procurar!


Não iria eu morrer,

meu amor, sem te achar.
Sem ao Céu poder volver,
antes da porta fechar.


Mas amanhã será um dia
como outro dia qualquer.
Trilharei a mesma via
sem tentar sair sequer.


Como o mundo irás seguir
na tua própria translação,
continuando eu a fingir
que me queres no coração.




10 março 2024

Amo-te Catarina

Querida Catarina,

Ando em luta comigo mesmo e só me apetece dizer-te o quanto te amo!
A pouca esperança que tinha de um dia poder partilhar a vida contigo está agora feita em cacos e ando a sentir-me devastado.
Contudo, quando recordo aqueles momentos em que estivémos mais próximos, essa esperança ressurge e não consigo eliminá-la de vez.


Não te conheço assim tanto e por vezes pergunto-me se nos iríamos dar bem.
Por outro lado, talvez eu não seja um bom partido para ti. Talvez não consiga amar-te como deveria e como tu merecerias.
O certo é que, apesar destas interrogações, todo o meu ser nada mais anseia que não seja encontrar-te e estar contigo.
Gostava de falar contigo frente a frente, sem reservas. De saber o que verdadeiramente sentes.
Gostava de mostrar-te as minhas qualidades e defeitos para que, se me aceitasses, não mais aceitasses que não eu.
Gostava de te esperar nem que seja até seres velhinha.
Gostava de saber se, como eu, também ficas contente quando estou presente.
Se também não descanças enquanto não souberes que já cheguei.
Se também te sentes desolada quando constatas que não estou.


Se souber que gostas de mim, esperar-te-ei o tempo que for preciso.
Dá-me um sinal, e essa espera será a mais feliz das minhas contrariedades.
Se não sentes nada disto, gostava que mo desses a entender.
Para que eu consiga extinguir este fogo definitivamente.
Para ter apenas essa dor para suportar e deixar de ter a dúvida que me está a enlouquecer.


Amo-te, Miguel


 

26 fevereiro 2024

Sei-te de cor

Mesmo que em ti nunca venha a morar, de mim nada te poderá levar.


 


"Sei de cor cada traço do teu rosto."


Paulo Gonzo


 


 


 

23 fevereiro 2024

Ainda a Catarina

Já passaram mais de três meses desde que soube que a Catarina vai ser mãe. Pouco tempo depois escrevi-lhe uma mensagem de felicitações. Deixei expresso o afeto que sinto por ela e deixei claro que o facto de ter deixado de a olhar, que deve ter notado, nada teve que ver com desprezo (ideia que começou a apavorar-me, por tão equivocada que é). Simplesmente, a sua gravidez envolve uma terceira pessoa que não supunha na equação. E outra, indefesa, que vai precisar muito dessa pessoa... Ou seja, o meu direito, já de si ilícito, tornou-se agora proscrito...


Desde então só me cruzei com ela, frente a frente, por duas vezes. Em ambas me relanceou um olhar que me pareceu de súplica. Ainda não entendi bem o que possa estar a pedir-me. Estará a pedir-me desculpa? Como? se a culpa desta situação é toda minha? (quando reparei nela, já lá vão uns 10 anos, e comecei a demorar sobre si o meu olhar, ela nem sabia que eu existia. Eu teria 42. Ela 25. Não sei quantos anos mais tarde começou a corresponder às minhas investidas, timidamente umas vezes, mais descarada outras. Sei que não foi logo. Durante uns anos não se apercebeu de nada, mas seguramente há mais de 6 anos que jogamos este jogo). Talvez se sinta culpada por não ter posto mais cedo os pontos nos is e esteja agora a sentir pena de mim, que é um sentimento que me repugna. Prefiro acreditar que aquele olhar revela a sua angústia por ter tornado os nossos destinos ainda mais distantes. Lírico...


Apesar de não nos termos voltado a olhar, nem eu nem ela deixámos de frequentar os mesmos lugares. Mas esta contenção, mais do que nos afastar, deixa no ar uma tensão que nos torna ainda mais presentes no espírito um do outro. Pelo menos é o que acontece comigo e sinto que com ela se passa o mesmo. A ansiedade por tornar a vê-la é tão grande ou maior do que a que tinha antes. Já houve dias em que evitei encontrá-la, mas isso só fez com que o desejo de voltar a vê-la se tornasse ainda maior, só se apaziguando na sua presença. O mais sensato seria deixar de frequentar de vez estes espaços, mas vou, dia após dia, adiando esta resolução.


Talvez não seja amor o que sinto por ela. Caso contrário não me sentiria tantas e tantas vezes atraído por outras mulheres (e não me refiro a atracção física, que essa é fácil de identificar e de desvalorizar). Como quando encontro certa jovem, com narizinho de escorrega e uma covinha no queixo, que me deixa completamente aparvalhado... pior: com vontade de querer conquistá-la (curiosamente tem algumas parecenças com a Catarina...). Se amasse verdadeiramente a Catarina aconteceria isto? E como seria se vivesse com ela? Não me aconteceria o mesmo que me acontece agora com a Eva? Chego à conclusão de que, contrariamente a amar muitas mulheres em simultâneo, não amo é nenhuma. Estes sentimentos nada têm de amor. É puro egoísmo. Têm que ver com a minha satisfação. E como me entristece esta conclusão...


Estou cansado desta dependência! Quero evitá-la, mas não sei como. Por vezes desejava ser eunuco, mas quando isso imagino penso no quão enfadonha se tornaria a vida… Como viveria eu sem o sentimento mais bonito que experimento e que me parece ser o único pelo qual vale a pena viver? Mal por mal, mais vale travar diariamente esta luta, combater as minhas inclinações naturais, manter as rédeas bem curtas ainda que tudo na minha alma ordene que as solte.


Para tentar acalmar o meu espírito e minimizar as situações desviantes, sem ser tão radical, decidi tornar mais evidente a minha idade, uma vez que toda a gente me julga 6 ou 7 anos mais novo. Para tal decidi deixar crescer a barba e expor a imensidão de pelos brancos que já a compõem. Talvez ainda não me deem os 52 que já carrego, mas 45 penso que já não me dão. Assim, com um leque mais reduzido de potenciais interessadas, talvez seja mais fácil comportar-me melhor.


Quanto à Catarina, continuo a adorá-la e angustia-me pensar que esta medida poderá afastá-la ainda mais de mim, mas tenho de me convencer de que tenho que abrir mão dela definitivamente, o que não está a ser nada fácil.


 

Este texto não é sobre gajas

  Tem uma vida profissional difícil de suportar? Não se sinta só. Provavelmente não é tão difícil como a minha. A minha é uma seca, mas uma ...