10 março 2023

Este mundo paralelo

Criei este blog para poder publicar textos que de outro modo ficariam fechados na gaveta. Por meio de um pseudónimo poderia libertar-me e dizer o que quisesse sem que ninguém saísse magoado, inclusivamente eu próprio. Foi assim que nasceu o Miguel Lucas. No início, como Miguel, sob a capa do anonimato, sentia-me livre. Escrevi textos que revelaram traços da minha personalidade que na vida real sou obrigado a esconder, o que foi bastante libertador.


O amor foi o tema mais abordado. Aquele que é mais complexo e dado a abrir mais feridas. Aquele onde mais temos de calar. O amor proibido. O amor reprimido. O amor impossível. Porque amor não sei se é o que mais tenho ou se é o que mais me falta...


Contudo, com o tempo, o tema começou a esgotar-se. Num período muito curto esvaziei todo o meu conteúdo. De acontecimentos passados e de outros que tive o privilégio de viver nesse mesmo período. Mas, na verdade, não o esvaziei totalmente. Houve um fenómeno que fez com que a gaveta se tornasse a fechar e que os textos deixassem de proliferar. Não por serem indecorosos, mas por uma outra razão, muito simples: comecei a conhecer pessoas neste mundo paralelo! Comecei a gostar delas e comecei a sentir pudor. E este mundo passou a ser uma réplica do real, onde fico acorrentado pelo medo de desiludir, de ser incorreto, resguardando-me muitas vezes no conforto do silêncio.


A primeira vez que tomei consciência deste facto foi quando publiquei um poema um pouco erótico, com um ou outro palavrão. Assumi como censura o facto de não ter recebido qualquer feedback. Senti que estava a desiludir os meus seguidores e importei-me com isso. Acabei por removê-lo alguns dias depois... admito que é um texto capaz de chocar uma parte considerável de leitores, mas tenho pena de que não esteja acessível.


Quero com isto dizer que quando não conhecia ninguém era fácil ser livre. Agora que o conheço a si que me lê e a ti que me lês, que construístes uma imagem a meu respeito, comecei a preocupar-me com aquilo que possais pensar de mim. Mesmo tapado com a máscara do Miguel Lucas que, com o passar do tempo e neste lugar, passou a ser a minha verdadeira cara. Tão ou mais real do que a minha própria cara. O medo de não ser amado, que toma conta de mim, já tomou conta do Miguel. Deste Miguel que inicialmente parecia ser tão destemido...


Poderei tentar vencer esta barreira, lutando contra estes medos infundados, mas também não sei se o quero fazer. O bem e o mal, o certo e o errado têm também um peso significativo. Seguir os impulsos, como o de escrever, por exemplo, sabe melhor se for feito em harmonia com a minha consciência.


 


 


 

8 comentários:

  1. Olá Miguel,

    Compreendo-o, muito mesmo, já o senti. Já parei de escrever e até mudei de nome e morada...
    No entanto, esse Miguel existe dentro de si e aqui entre nós. Somos entidades escritas confinadas a um mundo virtual, mas bem reais. Senti que, se eu deixar de escrever, essa parte de mim deixará de existir. É parte de mim que morre.
    Não mate essa parte tão bonita de si. Pelo menos a mim, nunca me ofenderá. E se deixar de escrever vou sentir a sua falta, como sinto a de outros que o fizeram.
    Se acaso não reparou, de vez quando dou um salto à sua página à procura desse Miguel e já estranhava a falta de palavras. Nem sempre dou feedback, aliás dou muito pouco até mesmo na minha página. Não deixe que isso o desmotive, por favor.
    Espero poder continuar a vê-lo por aqui.
    Um abraço.
    Micaela Sudden ou Madelaine Scud ou... chame-me o que quiser

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  2. Olá Miguel! Estava para lhe escrever um belo texto, quando me apercebi que não sei dar conselhos... De qualquer modo, posso desejar que ultrapasse as barreiras que o impedem de ser quem é.
    Força, seja Miguel, seja Antonio, seja José, seja o que for, seja de acordo com a sua consciência!
    Boa noite e bom fim de semana!

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  3. Olá Micaela. Obrigado pelo incentivo. Ajuda saber que há quem aprecia o que escrevemos.
    Quanto à visualização do blog, não me apercebi.
    Estou certo de que voltarei a publicar. Só não sei é quando... Beijinhos

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  4. Obrigado Esquisita.
    Muitas vezes as barreiras apenas estão nas nossas cabeças...
    Beijos

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  5. Caro Miguel,
    Não sou de aconselhar, o amigo procederá como melhor entender.
    Apenas lhe digo que a sua escrita é muito bem estruturada. A partir daí tudo é possivel, desde exorimir o sofrimento até usar e abusar da ironia.
    Um abraço

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  6. Pois é João Afonso, não vale a pena levar a vida tão a sério...
    Obrigado e um abraço

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  7. Ah, seu Miguel, seus textos são sublimes. Continue.

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  8. Não tanto quanto os seus, Filipe!
    Honestamente.
    Obrigado e um abraço

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