02 julho 2026

Este texto não é sobre gajas

 


Tem uma vida profissional difícil de suportar? Não se sinta só. Provavelmente não é tão difícil como a minha. A minha é uma seca, mas uma seca, tão grande, tão grande que não me cabe nos pulmões o ar necessário para proferir o impropério que a mesma merece. Só a consigo aguentar pensando um dia de cada vez e graças às imensas distracções pontuais que vou inventando.

O pior é que não vejo solução à vista. Já ninguém me quer com a minha idade e o meu posto. Já tive uma entrevista que esteve quase, quase a resultar, mas o carcanhol que estavam dispostos a gastar era vergonhosamente baixo... Se fosse só um bocado... Mesmo assim ainda ponderei... apesar dos cerca dos 240 km que precisaria de fazer diariamente.

A minha triste experiência também não ajuda a querer mudar. Trabalhei mais de vinte anos numa grande empresa. Era respeitado, tinha responsabilidade, autonomia, subordinados, um salário interessante. Tinha estatuto. Só não fui muito feliz porque nem o meu corpo nem a minha mente foram talhados para trabalhar no mesmo assunto de manhã à noite. Mas também o não foram para empreendedor, por isso tinha de me aguentar.

O problema foram os últimos cinco anos nessa empresa. Passei a ter uma chefia muito tóxica e não aguentei. Durante esse tempo estive atento a todos os anúncios que me surgiam, fui a algumas entrevistas e a oportunidade acabou por surgir. Encontrei o remédio de que precisava para acabar com aquele sofrimento. E engoli avidamente a pílula que me apareceu, sem hesitar. Ainda por cima era bem dourada. Haviam de ver o site... Já se passaram seis anos...

Somos cinco gatos pingados, com fones nos ouvidos o dia todo. Falo mais de manhã quando vou ao café do que o dia todo com esta malta. Felizmente o ambiente não é tóxico, mas por vezes pergunto-me: onde está o ambiente? Perdi estatuto, autonomia, responsabilidade. Perdi contacto com fornecedores e com clientes. Perdi o contacto diário com os meus colegas de tantos anos, que ficaram mais do que colegas. Ainda me encontro e falo com eles muitas vezes. Perdi autoestima e autoconfiança. Deixei de acreditar num futuro melhor. Só não perdi salário, que esse até melhorou. Mas pagava para ter um trabalho mais aliciante. O que me aconteceu faz-me lembrar os pobres coitados que se lançaram das torres gémeas para fugir ao fogo. Só queria era sair dali. Sabia que ali não poderia ficar e lancei-me pensando que pior não poderia ser. Agora tenho dúvidas...

Desmoralizo-me quando verifico que ainda me faltam 12 anos para a reforma... Penso que sou capaz de muito mais. Que estou aqui a desperdiçar o meu tempo e as minhas qualidades. Acho que ainda poderia dar muito, sobretudo se estivesse motivado e com vontade. Mas não encontro solução à vista. Ainda tenho filhos a meu cargo e uma casa para pagar. Não posso mandar tudo às urtigas. Só me resta aguentar e esperar outro milagre.

26 junho 2026

Outro sonho



No outro dia ao fazer zapping, deparei-me com o filme PS I love you e decidi ficar a vê-lo, talvez por estar um pouco lamechas ou, o mais provável, porque a protagonista me fez lembrar bastante a Marisa. Apesar de não me ter perdido em pensamentos com ela, a verdade é que, sem querer, acabou por vir ter comigo no sonho que tive nessa mesma noite.

Apareceu na nossa casa, que nem era a nossa casa verdadeira, como se fosse a coisa mais natural do mundo, o que, nos sonhos, é o que mais acontece… Estava tudo a correr muito bem, com muita formalidade e sem ultrapassar os limites das conveniências, até ao momento em que, sem me lembrar de como nem porquê, ter dado por mim deitado ao seu lado, beijando-lhe longamente os lábios… Foi tão bom este beijo, tão real e saboroso (e sem saber a almofada), numa sintonia tão perfeita que eu nem queria acreditar. Muito menos acordar. Mas foi isto que aconteceu. Acordei e vi que estava a beijar a Eva, sonhando que estava a beijar a Marisa…

Mas não se assustem. A situação não foi assim tão grave. Vejam bem o que os sonhos são capazes de fazer: Quando acordei, na verdade ainda estava a dormir. Só tinha acordado no sonho. E só estava a beijar a Eva no sonho. A situação só não foi aterradora porque acordei sobressaltado logo depois, talvez com o susto de poder ter chamado Marisa à Eva... Ou seja, não beijei nem uma nem outra. Foi tudo um só sonho.

07 abril 2026

Para a Noelia

Pintura mural de Nauni Moreno


Conheci-te a chorar,
Noelia, tão bonita.
E soube que ia acabar
tua sorte tão maldita.

Não pretendias morrer.
Que alguém, antes querias,
te abraçasse até doer.
Só que isso não sabias.

Atendemos tua vontade,
ajudando-te a partir.
Chamámos-lhe respeito.
Como fomos permitir?

Dar-te-ia uma flor,
pudesse ter-te comigo.
Aliviaria a tua dor,
mas só lágrimas consigo.

Vais ouvir estes poemas
No lugar que te ganhou.
Vais ganhar todo o amor
que no outro te faltou.

27 março 2026

Coração fraco (continuação)

Lá arranjei coragem para acabar de ler a novela. Volto a alertar para o spoiler contido nestas minhas divagações. Vássia acabou maluquinho... O autor nunca refere a causa do seu enlouquecimento. Mesmo quando, nas linhas finais, refere que o amigo a compreendeu. Fui ver o que dizia a net: Não encontrei ninguém que concordasse comigo, atribuindo-a ao ciúme.  Há unanimidade em assumir que Vássia não suportou a felicidade que o esperava por não se sentir dela merecedor nem por a achar possível. Muito resumidamente é isto.

Mas esta conclusão não explica uma série de comportamentos e insinuações que o autor vai deixando escapar, tanto nas linhas como nas entrelinhas. Talvez, só quem já tenha sentido aquele ciúme doloroso consiga relacionar os comportamentos descritos com a sua vivência pessoal. Mas bolas, haverá alguém que nunca sentiu ciúmes? Estarei de tal maneira certo da causa que já só vejo o que quero ver? Tal como confundo a realidade? Admitindo como verdades absolutas aquilo que deduzo passar-se nas cabeças das outras pessoas? Ou terá tido o autor uma experiência de ciúme tão amarga que nunca a quis explicitar nesta novela? Deixando-a passar sempre subentendida, que é assim que ela se insinua nas nossas próprias vivências? Mas só eu é que vejo isto? Serei assim tão inteligente? ou estarei já tão ou mais louco do que o Vássia?

16 março 2026

Coração fraco

Está a acontecer o que temia. Depois da novela "A senhoria", sobre a qual me debrucei no post anterior, sucedeu-se "Polzunkov" e depois a que deu nome a esta compilação: "Coração fraco". Desde que comprei este livro que andava com maus pressentimentos em relação a esta novela. Pelo título, dada a natureza do meu coração, pressenti que não sairia ileso da sua leitura. E mais apreensivo fiquei depois de ler "A senhoria". Ainda não acabei de ler "Coração fraco" e já sei como vai terminar...

Quando iniciei a sua leitura vi logo no que é que ia dar. E, a cada página que virava, com mais certeza ficava, confirmando todos os receios que antevera. A história começa por mostrar a forte relação de amizade entre dois jovens, um mais impulsivo, de coração mais fraco digamos assim, e outro mais sensato. Vássia e Arkádi. O primeiro estava eufórico e ansioso por, finalmente, poder contar ao amigo que se ia casar. Facto de que o outro nem suspeitava porque Vássia nunca lhe falara da sua adorada namorada, de há apenas quatro meses, não fossem as coisas correr mal. Com estes ingredientes em cima da mesa, já estava a ver qual iria ser o prato principal. Ainda assim fui continuando a sua leitura, na esperança de que estivesse enganado.

À medida que ia lendo ia revivendo um episódio que se passou não há muito tempo, talvez há uns dois anos, que muito me perturbou. Estava eu muito bem com o meu irmão quando a Catarina apareceu, sem ter reparado em nós, mas a fazer algo que chamava a atenção. Adivinhando já o que se ia passar, embora com alguma esperança de que não acontecesse nada, o meu irmão, que nunca a tinha visto, nem podia supor que eu pudesse ter algum interesse nela, voltou-se para mim e sussurrou-me "aquela ali não é nada de se deitar fora". Foi como se estivesse estado cego o tempo todo e os olhos se me abrissem naquele instante. Um cenário que ainda não se me colocara apareceu de repente à minha frente, com todos os detalhes e tão bem definidos que era como se estivesse a acontecer. E que dor aquilo me causou. Foi como se tivesse visto o futuro. Vi a Catarina e eu numa relação, muito apaixonados um pelo outro, até surgir a inevitável altura em que é apresentada à família. E aqui, como uma revelação, ou como um aviso, foi como se tivesse a certeza de que o meu irmão se tornaria o incontestável alvo de todo o seu amor.

O meu irmão é o melhor dos rapazes, de quem, acreditem, não guardo nenhum rancor. Não tem culpa de que toda a gente goste dele... Não faz esforço nenhum para que isso aconteça. Nunca me senti traído por ele. Ele tem qualquer coisa de especial, uma aura digamos, que atrai toda a gente. Gente e não só. A minha cadela, por exemplo, até salta quando o vê. Por outro lado, eu, um cidadão comum, tenho o condão inverso. O menos nobre sentimento que tenho por ele é uma ponta de inveja, por não ter saído mais como ele. Foi por isso que me surgiu este receio em relação à Catarina. Muitos pensamentos invadiram então a minha cabeça. Desde dar graças por nunca ter tido nada com ela e assim nunca a poder perder, a imaginar subterfúgios para que os dois nunca se viessem a cruzar.

No ponto da narrativa em que me encontro Vássia já levou Arkádi a casa da noiva. E, claro está, este ficou apaixonadíssimo por ela. Todas as minhas suspeitas se estão a confirmar e avançar na leitura desta novela está a tornar-se cada vez mais penoso.  Até pode ser que não, que tudo acabe em bem. Mas já todos percebemos o que vai acontecer, não percebemos? Nem quero imaginar o que Vássia vai sentir...

Se em "A senhoria" fui confrontado com uma realidade "igual" à que tive recentemente, cujo tema é o amor não correpondido, ou a rejeição,  em "Coração fraco" estou a encontrar outra realidade, ainda mais dolorosa, que a todo o custo tento evitar, que é a do ciúme, da traição. É de tal ordem a minha fobia a esta dor que as maiores decisões da minha vida foram por ela condicionadas.

Agora expliquem-me lá, adeptos das ciências ocultas, como é que eu pude ter este pressentimento em relação a esta novela? Como é que pressenti que estava perante um texto que me iria abrir a ferida mais dolorosa que tenho? Para a coincidência de ”A senhoria” encontrei uma explicação. Para esta premonição confesso que não estou a ver.



27 fevereiro 2026

A senhoria

Ultimamente tenho ouvido muito falar em extraterrestres, reptilianos, viagens no tempo e outras coisas que envolvem um mundo escondido e camuflado que se mistura com o nosso.  Ontem tive a prova de que isso é verdade. Fiódor Dostoiévski é um desses seres. Que ele era genial já sabia, tal como toda a gente. Ontem, ao concluir a leitura da sua novela "A senhoria", descobri que ele é muito mais do que isso: O Fiódor viajava no tempo! Esta verdade escancarou-se perante mim. Se a ler, caro leitor, verá de que falo verdade. Está lá tudo o que se passou entre o Miguel Lucas e a Catarina! À medida que ia lendo a novela ia ficando com esta certeza, estupefacto com as semelhanças que ia encontrando. Cada vez mais me ia convencendo de que estava perante a revelação do meu futuro! A avidez por chegar ao fim ia-se misturando com a reserva em me deparar com um final que não queria para mim, apesar de o ser já óbvio para toda a gente…

Se quiser ler a novela, caro leitor, o que recomendo, aviso-o desde já que este texto contém spoiler. Se porventura já tiver lido a novela, e se conhece o que escrevi, poderá constatar por si mesmo se tenho ou não tenho razão. 

Vejamos: O Ordinov conhece a Katerina numa igreja; fica embasbacado com a sua beleza, com os seus olhos e cabelos negros contrastando com a sua clara pele; com os seus modos. Neste ponto fiquei logo admirado com as coincidências.  E ainda nem sabia o nome dela... O próprio Ordinov tem muitos aspetos da sua personalidade com os quais me identifiquei: É introspetivo, solitário, infantil, sonhador, com dificuldades em se relacionar com o mundo exterior…

Mas prossigamos. Esta Katerina também tem uma relação com outro homem. Que também nunca se percebe muito bem como é.  Que nunca se percebe se o ama ou não.  E essa dúvida vai atormentando Ordinov o tempo todo. Ele vai percebendo sinais de que é amado por ela e, apesar de encontrar no seu homem um obstáculo, sente que este vai ser ultrapassado. Que o seu sonho se vai tornar realidade…

Quer mais evidências, caro leitor? No final ela surpreende Ordinov, e a nós que lemos a novela, revelando-lhe desprezo e escolhendo regressar à sua terra com o seu homem, deixando Ordinov na mais completa amargura… O Ordinov misturou a realidade com as suas fantasias sem conseguir distingui-las. E esta foi também a minha história!

É verdade que não é só minha, o que só por si não seria suficiente para tirar estas conclusões acerca de Fiódor Dostoiévski. Mas foi a sua desfaçatez em não disfarçar nada, dando à sua personagem o mesmo nome, a mesma beleza, os mesmos comportamentos, sabendo que eu ia ler a sua novela, que me fez ter a certeza destas minhas afirmações. Nunca lhe perdoarei o gozo que teve à minha custa pelo facto de eu, não sendo da sua raça, não poder ir ao passado para lhe ir apertar o pescoço!


 


 

18 novembro 2025

Apaixonei-me por ti

Apaixonei-me por ti
não me envergonho deste desaire
pelo contrário
tenho tanto orgulho em gostar de ti
que me apetece gritá-lo aos quatro ventos
numa estação de metro à hora de ponta
ou escrevê-lo em letras garrafais
de uma manga à outra do Cristo Rei
Para toda a gente saber
que és tu
a mulher que amo.

 

14 outubro 2025

O que foi deliberado

 

Tenho de te esquecer!
Foi o deliberado por unanimidade
na assembleia de neurónios.

Tento convencer-me,
para ser mais fácil,
de que não gostas de mim,
de que me consideras mesquinho,
um vil praticador de assédio,
como por aí há tantos agora,
se calhar também eles
com a ilusão de que são amados,
pobres coitados.

Mas como posso esquecer-te
se quando passo por ti
olhas para mim assim?

Este ponto não foi discutido.
E muito menos quiseram ouvir
o que o coração tinha para dizer.
Senão, teria ficado lavrado,
nem que fosse escrito à mão,
Que, por razões de prevenção,
o decreto de te esquecer
teria de ser revogado.

 

 

08 outubro 2025

Para sempre

Imagina que, por capricho do destino, as portas que nos separam se escancaravam de par em par, deixando-nos livre o acesso um ao outro. Imagina que eu as atravessava para ir ao teu encontro e que tu me recebias. Imagina ainda que começávamos a dar-nos e a conhecer-nos e que tudo aquilo com que sempre sonháramos começava por fim a acontecer.

Se tudo isso finalmente acontecesse, será que irias encontrar em mim a mesma pessoa que imaginavas que eu era? Mostrar-te-ias tu uma pessoa diferente daquela que eu imaginava que serias? E o que faríamos nessa altura? de que passaríamos a conversar? De que nos iríamos rir? Como nos iríamos abraçar? Dois estranhos um para o outro.

O melhor é que o destino não intervenha. Que se deixe ficar quietinho lá onde estiver e que eu e tu continuemos a ser um para o outro aquilo que sempre fomos um para o outro. Que as nossas conversas, os nossos risos e os nossos abraços continuem a acontecer, de forma real, nas nossas cabeças. Que tu continues a ser a mulher mais especial que alguma vez conheci. Para sempre.

 

29 agosto 2025

A Linda

Ainda lá estão os mesmos bancos de jardim em ferro fundido. No parque público da vila onde vivi até aos meus vinte e tal anos, altura em que me mudei para a vila ao lado. Ainda repousam solitários e observadores sob o caramanchão que se estende ao longo do muro. É nesses bancos que ficam alguns pais ou avós a ver os seus meninos brincarem nos baloiços, que hoje já são mais modernos. Nos antigos baloiços andei eu muitas vezes. No banco só me lembro de me ter sentado uma vez. Não me lembro muito bem de que idade tinha. Talvez já tivesse entrado para a universidade. Devia ter uns dezassete ou dezoito anos. Quando me sentei neste banco não foi para ver ninguém a andar de baloiço. Nem sequer era de dia. Estava a haver uma festa no parque. Se não me falha a memória era uma festa de angariação de fundos para os escuteiros, aos quais eu pertencia. Talvez por isso tenha lá ido. Mas não estava na organização. Estava lá alguém a cantar.

O parque era a dois minutos da casa dos meus pais, onde morava. Na minha rua moravam outros miúdos de quem éramos amigos, eu e os meus irmãos. Passávamos as tardes de sábado e de domingo a andar de bicicleta e a inventar coisas para fazer. Eu era o mais velho de todos. Para além da minha irmã, um ano mais nova do que eu, havia mais duas meninas no grupo, ainda mais novas. Também havia outros três rapazes. Ao todo éramos oito.  A Linda era dois anos mais nova do que eu, da idade do meu irmão. Éramos crianças. A Linda foi para mim uma criança durante muito tempo, mas, quando eu tinha dezoito anos, ela já tinha dezasseis e estava a ficar uma mulher. E linda como o seu nome. Por vezes já não a via como criança.

Aquela festa atraiu-os ao parque, não sei se todos, se apenas alguns, mas a Linda estava lá. Encontrámo-nos e juntámo-nos uns quantos a conversar e passado algum tempo, já não sei muito bem como, aconteceu sentar-me naquele banco.  Sentei-me com a Linda. Ela trazia umas calças de ganga que mostravam muito bem aquilo em que já tinha tido oportunidade de reparar algumas vezes, mas que afastava dos pensamentos, focando-me na sua imagem de criança a andar na sua BMX. E agora estávamos ali sentados, os dois sozinhos, debaixo de um caramanchão sem iluminação natural nem artificial, a vermos ao longe a banda a tocar. Ela estava alegre e sorridente. Percebi que não iria tomar qualquer iniciativa, mas senti que estava à espera de que eu o fizesse. E ali estava eu, com uma parte de mim a querer fazer coisas que a outra parte não queria... Neste caso nem foi o medo da rejeição que me travou. Foi mais o sentir que não devia. Nunca tinha pensado nela de outra maneira. Ai se fosse hoje... hoje não tenho a inocência que tinha. Os anos foram me tornando mais insensível, mais egoísta, mais sacana. Hoje ter-me-ia dito: aproveita Miguel, que tão cedo podes não ter outra oportunidade. Ela é tão bonita e tão boa, já viste o prazer que podes ter com ela? E dir-me-ia que estúpido que és se não aproveitares. Não vês que ela também quer? Por vezes acho que fui estúpido. Acho que não teria feito grande mal. E parece-me que ela também só se queria divertir um pouco. Outras vezes acho que fiz o que estava correcto, e isso é uma coisa que cada vez faço menos. Um dia vou voltar a sentar-me naquele banco. Pode ser que lá encontre um pouco da virtude que perdi.

 

Texto revisto por Nuno Almeida Santos

 

06 julho 2025

Dizes?

 

Diz-me só quando vai ser, dizes?

Diz-me só se ainda falta muito

ou se está quase, dizes?

Só para saber

quanto tempo ainda tenho

para não desistir de ti.

Dizes?

 

17 junho 2025

E fogo sem fumo?

O meu amor é um fogo

que se ateia sempre que te vê.

Rarefeito de ti

torna-se uma espessa nuvem

de fumo negro

que me engole e sufoca

sem nunca se dissipar

até à hora em que,

por mais que demores,

ele te volta a ver.

Fumo sem fogo não há.

Fogo sem fumo

meu amor nunca viu.

 

 

 

11 junho 2025

Na Igreja

Para a missa dominical
a igreja se adornou:
transformou-se em catedral
no momento em que ela entrou.
 
Sua pele de marfim
toda a nave iluminou.
Todo o pedaço de mim
com sua luz se embriagou.
 
Do cabelo o negror,
que a branca tez debrua,
realçou o seu esplendor
como a noite faz à lua.
 
Assim Deus me encontrou:
perdido e d'Ele alheado.
E sua cabeça abanou
por tê-la tão bela criado.

 

 

 

21 abril 2025

Era só isto que queria saber

Quando vais àquele lugar,

que costumo frequentar,

ficas por mim a ansiar?

Ou rezas para eu não estar?

Ou nem sequer a ocupar

teus pensamentos vou chegar?

 

Porque quando venho a entrar,

por mais que tente afastar

o desejo de te encontrar,

não consigo sossegar

enquanto não te avistar.

Era só isto que queria saber.

 

 

14 abril 2025

Chegou a hora

Chegou a hora de fechar o salão.
Já todos se foram embora.
Lá fora, soube, ela vai prometer
fidelidade até que a morte os separe.
Só eu resisto, sentado, tamborilando o balcão
Relutante em abandoná-lo definitivamente.
Esperando que ela se tenha esquecido de algo.
Que volte, e ao fazê-lo mude de ideias...
Ela não vai voltar.
E se o fizer, não mudará de ideias.
Vou saldar a conta.
Não posso mais cá voltar.

 

 

19 março 2025

Vimeiro

Hoje comprei um L&M Blue e mal dei a primeira passa lembrei-me da história que vos vou contar, já lá vai muito tempo... Tinha 18 anos, a carta de condução há uns meses e um dos primeiros maços de tabaco no bolso: um SG Ligths. Estou a referir-me a um encontro de amigos do curso do meu pai, com as respetivas famílias. Éramos cerca de oito famílias. Fui com os meus pais, o meu irmão e a minha irmã. Tenho a impressão de que até fui eu a conduzir para o Vimeiro, sob as orientações frequentes e enervantes do meu pai. Nós, os filhos, não conhecíamos nada bem esta gente, mas havia alguns jovens da nossa idade, infelizmente, para mim e para o meu irmão, quase todos rapazes. No entanto todo um universo de prespectivas se abriu quando chegámos ao hotel Golf Mar. Andavam por lá, à solta, umas raparigas do Porto, das nossas idades, que achámos muito desinibidas comparando com as que conhecíamos na nossa zona de Lisboa. Por sorte, os rapazes do nosso grupo eram mais sabidos do que eu e o meu irmão, que tinha nesta altura apenas 16 anos.

Isto fez com que, quando fomos para a piscina, metessemos conversa com um grupinho de quatro miúdas. Elas andavam entre os 17 e os 18 anos. Todas bonitas, faladoras e galhofeiras. E não nos devem ter achado de deitar fora, caso contrário não nos teriam desafiado para um encontro depois do jantar. Ficámos eufóricos!

Não me lembro nada do que se passou durante o jantar. Devemos ter comido à pressa, apenas com uma coisa na cabeça: o encontro com elas. Mas lembro-me de que nos reunímos os cinco num dos nossos quartos, para delinear estratégias. Aparecemos lá já com roupa de sair, que não devia ser nada de especial, e entretivémo-nos a conversar sobre as hipotéticas situações que poderiam ocorrer, influenciados por aquilo que era o nosso desejo do que viesse a acontecer... Lembro-me também que um de nós chegou mesmo a bochechar com perfume para irradicar a possibilidade de ter mau hálito.

A hora chegou e, espante-se, elas não faltaram ao prometido. Juntaram-se a nós nesse quarto, longe dos nossos pais o adivinharem... O que se sucedeu depois não exigirá muito das vossas imaginações. A conversa deu lugar a mais conversa, galhofa e gargalhadas, mas nada mais do que isso. Elas não deviam estar para aí viradas. Ou então fomos nós que fomos muito anjinhos, talvez esperando que fossem elas a atacar-nos, faltando-nos a coragem para dar um passo mais afoito. Creio que ainda nos encontrámos com elas no dia seguinte na piscina, mas nada mais de especial aconteceu.

Trouxe no maço de tabaco o número de telefone de uma delas, que ainda guardo, mas nunca lhe liguei. Talvez tenha sido uma grande estupidez, nunca saberei. Hoje é raro fumar, nunca fui grande fumador, aliás, mas há dez anos que deixei de comprar cigarros regularmente, mas quando o faço e sinto aquele aroma lembro-me sempre deste encontro. Cada passa faz-me regressar àquela ingenuidade e à excitação que tivemos na esperança de irmos ter uma noite inesquecível, que acabou por sē-la, mesmo assim.

05 março 2025

Catarinazinha

Catarinazinha,

Que estúpido eu fui em ter-te escrito. Se não o tivesse feito, tudo o que aconteceu entre nós, que foi tanto tendo sido quase nada, talvez estivesse já a desvanecer-se. Mas não. Pus-te ao corrente. Evidenciei o problema. E agora já não é possível voltar atrás. Há provas escritas. Tu sabes o que eu sei. Como posso esquecer uma coisa sabendo que ela pode não ser esquecida por ti? Ter-te escrito ditou a perpetuidade da situação. Ou, pelo menos, de a prolongar mais do que seria desejável. O mal está feito! Resta-me roer-me de saudade quando não te vejo ou de privação quando te vejo sem que possa estar contigo. Ainda por cima agora quase não te vejo. Se ao menos quisesses quebrar as regras... Mas tens sido exemplar. Procuras estar sempre fora do meu campo de visão e eu nem contemplar-te ao menos posso fazer. Só isso me bastaria, Catarina. Não quero mais que isso. Amo-te tanto. Como pude deixar-me chegar a este ponto, meu amor... Os dias passam, as semanas e os meses passam, mas não há meio de passar a tua presença dos meus pensamentos.

Beijo, Miguel

 

01 fevereiro 2025

Luana

No dia em que ia regressar a Portugal, estava na espectativa de reencontrar a Luana, a hospedeira que tinha vindo no voo doméstico que me tinha levado de Belo Horizonte a Governador Valadares na semana anterior. Nessa viagem fiquei no primeiro lugar a contar da cabine, junto à saída de emergência, do lado da coxia. As hospedeiras eram muito bonitas, muito mais bonitas e simpáticas que as da TAP, e a que ia à frente era-o especialmente. Teve de me explicar o procedimento para abrir as portas de emergência em caso de necessidade e eu a oportunidade de de me deleitar com a sua voz e com os seus gestos. Quando tinha de se sentar, fazia-o do outro lado da coxia, ficando praticamente de frente para mim. Ou seja, tive a feliz sorte de a poder ir observando discretamente durante a maior parte da viagem. Era realmente bonita. Estava noite de temporal. Notava-se que ela estava tensa, mas fazia tudo para se mostrar segura e confiante, o que acentuava ainda mais a sua beleza. Ao mesmo tempo dava vontade de a tranquilizar.  Ela nunca olhou para mim directamente, mas sei que percebia que eu a ia observando, parecendo sentir-se embaraçada. Por isso fui diminuindo os tempos das minhas contemplações. Num instante a viagem acabou, não só porque tinha apenas uma duração de 40 minutos, mas fundamentalmente porque estava a ser deliciosa. Perante a sua beleza e graça eu estava meio atrapalhado e até um pouco aborrecido comigo mesmo por mais uma vez estar a tentar seduzir outra mulher. Quando peguei na mala para sair do avião, talvez por timidez, talvez por sentir que ela tinha percebido tudo, e também para não alimentar mais aquele fogo, decidi não olhar para trás não me tendo despedido dela nem agradecido nada. Fiquei um pouco chateado por não o ter feito, mas achei que tinha sido melhor assim.

No dia do regresso a Portugal, quando entrei no avião que me ia levar a Belo Horizonte, estavam lá duas beldades, mas nenhuma era a Luana. Que pena. Gostava de a ter visto uma vez mais. Aterrámos no aeroporto da Pampulha, que é um aeroporto mais pequeno, mais próximo de BH, para os voos domésticos, e acabei por sair do aeroporto sem nunca a ter visto. E assim tinha morrido a minha última esperança. Depois fui para o aeroporto de Confins, este internacional, a 30 km do primeiro, para apanhar o avião para Portugal. Estando eu a deslocar-me no interior do aeroporto cruzei-me com duas hospedeiras que seguiam em sentido contrário e, para meu espanto, constatei que uma delas era a Luana. A fracção de segundo em que os nossos olhares se cruzaram foi suficiente para entender algumas coisas: Percebi que ela já estava a olhar para mim antes de a ter visto. Percebi que me tinha reconhecido. E ainda me sobrou tempo para confirmar como realmente era bonita, mais bonita ainda do que a tinha achado na semana anterior. Ainda parei e me voltei para trás, mas apenas para a ver desaparecer, resoluta, no meio de toda aquela gente apressada. Não se voltou para trás, mas, o olhar que me entregou neste dia, que me tinha negado no outro, fez-me levantar voo ainda antes de entrar no avião. E quando aterrei, já em Portugal, ainda pairava sobre aquele Belo Horizonte.

 

Fevereiro de 2014

 

 

17 janeiro 2025

Talvez te venha a esquecer

 
Talvez te venha a esquecer.
Para já, não vou forçar.
Vou deixar de me importar
com a dor de não te ter.
 
Se te vir, vou deleitar-me;
Quando não, vou te ansiar.
Se sorrires estás a abraçar-me;
Se me olhares, um beijo a dar.
 
Hoje não te dás permissão 
pra me sorrires ou olhar,
mas sinto que o teu coração 
fica à porta a espreitar.
 
Para mim já não te viras,
mas eu digo que é por dever,
que no fundo estás a sofrer,
e tudo o resto são mentiras.
 
 

13 dezembro 2024

Quem me dera simplesmente esquecê-la

Não estou a conseguir esquecê-la. Ou melhor, não estou a conseguir querer esquecê-la. Nas minhas esporádicas orações, quando estou para pedir ajuda para a esquecer, vacilo. Receio que o meu pedido seja atendido e, no íntimo, quero é pedir para que ela goste de mim... Não estou mesmo a conseguir querer abrir mão dela. Não me convenço de que nunca sentiu nada por mim. E convenço-me de que ainda sente... agarro-me às expressões que percebi no seu rosto, aos brilhos que encontrei nos seus olhares, à ansiedade que vi nos seus gestos... Nada disto foi adivinhado por mim. Não foi delírio nem imaginação minha. Tenho a certeza de que foi real. O meu erro deve estar em não aceitar que os sentimentos mudam. Que por vezes não são certos e que percorrem caminhos erráticos. E isto pode e deve ter acontecido com ela.

Não acredito no seu amor pelo seu homem. Nunca acreditei. Mas é o homem que escolheu. É o que lhe pode dar conforto, lhe pode dar a mão. A pode amar. Eu não posso. Então o mais lógico seria centrar-me naquilo que tenho. Seria, nos meus momentos de recolhimento, deixar de pensar nela. Passar definitivamente uma esponja sobre ela. Só que, quando vejo o seu rosto, fotografado no meu cérebro como se estivesse à minha frente, como o vi na semana passada, ou na outra, e que fica gravado com tanta nitidez, dou-me por vencido. Porque as emoções que tenho quando a vejo, ávido por detectar o mais pequeno sinal seu, são difíceis de conter em mim. Sinto-me virar-me do avesso. Sinto o meu coração desinquietar-se. A respiração suspender-se. O peito ficar a doer-me. O tempo a alongar-se. O espaço a enevoar-se, deixando visível apenas ela. E vê-la é a mais maravilhosa experiência que se pode ter. E não quero deitar fora estes sentimentos...

Como é difícil um rico entrar no reino dos Céus... Como foi difícil para Judas abdicar dos trinta dinheiros. Não foi capaz. A minha riqueza é ela. Por causa do que me faz sentir. E não estou a querer sair deste inferno... Se verdadeiramente a amo tenho de desistir dela. Deixá-la ser feliz com a sua família. E colocar o meu futuro nas mãos de Deus. Ser perseverante. Confiar que Ele me deu o que é melhor para mim. E que, se houver algo melhor, a seu tempo Ele mo dará. Aceitando com humildade que pode não ser aquilo que agora quero. Parece ser tão fácil quando se pensa nisto desta forma tão racional... Quem me dera esquecê-la… naturalmente, sem custo. Simplesmente deixar de a desejar... amo-a tanto, porra!

 

 

Este texto não é sobre gajas

  Tem uma vida profissional difícil de suportar? Não se sinta só. Provavelmente não é tão difícil como a minha. A minha é uma seca, mas uma ...